Salta aos olhos a cidade de Paraibuna (SP), ainda não totalmente descoberta pelos turistas. Cheia de graça e personalidade que transparecem em suas ruelas, morros, na Praça Monsenhor Ernesto Almiro Arantes, com a principal igreja matriz ao centro e casas coloniais ao redor, seu mercado municipal, suas cores e o sossegado dia-a-dia ao longo do rio.
Com um traço colonial marcante, legado da passagem de índios, tropeiros e do ciclo cafeeiro no Vale do Paraíba, a cidade oferece pontos turísticos aliados a lindas paisagens. Paraibuna, com pouco mais de 18 mil habitantes, é recanto preservado, esconderijo de um Brasil quase ingênuo, que viu o tempo passar, as cidades incharem, e resguardou-se. Ela não criou asas, fortaleceu suas raízes.
Um desses pontos turísticos e históricos é o velho Mercadão, com seu comércio de produtos regionais, distribuído pelas 41 lojas, onde ainda encontram-se pérolas da culinária. No Box 8, de Luiz Gonzaga Faria Mendes, é servido diariamente o tradicional “afogado”, prato feito de músculo de vaca amaciado e temperado no caldo, servido com farinha de mandioca e arroz. Deve-se respeitar o jeito certo de comer: primeiro coloca-se o caldo e a farinha por cima. Mistura-se para fazer um pirão. Depois vem a carne e o arroz cobrindo tudo.
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Luiz Mendes afirma que come o afogado todos os dias: “Músculo de boi é a melhor carne que existe: não tem gordura e dizem que os nervos fazem bem”. As cozinheiras Cida e Ivanilda preparam o prato no dia anterior para que fique mais macio e encorpado. Na receita, não usam o tutano nem a alfavaca, ingredientes tradicionais do prato, e adicionam cebola, alho e folha de louro ao tempero.

Nos fins-de-semana, ao lado do mercado, pode-se experimentar o afogado das irmãs Stábile. Elas são filhas de uma figura da cidade, o Manezinho Stábile, que tinha uma quitanda no mercado e fazia o melhor afogado e o melhor pastel da região. Ele se foi, mas as filhas mantêm a tradição centenária. O pastelzinho é feito de farinha de milho e polvilho, recheado com músculo moído em máquina de mão, que rasga a carne e a deixa em fiapos. E o afogado respeita a receita original do Manezinho, com alfavaca e hortelã.
Um dos responsáveis por “ressuscitar” a história do afogado é o pesquisador João Rural, morador de Paraibuna. Depois de muito pesquisar ele chegou à receita original e explica que o afogado surgiu quando apareceram as primeiras cabeças de gado na região do Alto Vale do Paraíba. Os fazendeiros davam as partes mais duras da vaca, pernas e mãos, para os negros comerem. Eles cortavam a carne e o osso, acrescentavam água e sal e deixavam cozinhando a noite toda. Daí o termo “afogar a comida”. À parte faziam um molho com alho, cheiros verdes e urucum (para dar a cor), alfavaca e hortelã (para ajudar na digestão). Quando a carne amolecia, retiravam os ossos, que a essa altura já soltaram o caldo de mocotó, e misturavam o molho. Comia-se com farinha de mandioca e arroz branco.