Brasil, 31 de Julho de 2010

Rio das Flores

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Mapa da Região: 
Rio das Flores

Resgate da culinária dos tempos do café

Que tal desfrutar do prazer de se hospedar numa fazenda dos tempos do café e, ainda por cima, poder apreciar uma boa comida, igualmente “histórica”? Em Rio das Flores, fazer as duas coisas ao mesmo tempo é possível em pelo menos duas das dez fazendas históricas localizadas no município.

Chico Junior
Imagem da fachada da fazenda.
Sede da Fazenda União 

A requintada Fazenda União, de 1836, pertenceu ao Visconde de Ouro Preto. Hoje os barões são outros: o casal João e Rosalina Monteiro dos Reis. Ele, arquiteto, conhecedor e apaixonado pela história do Ciclo do Café. Ela, bióloga e pesquisadora da culinária que se fazia na região no século XIX.

Imagem do interior da fazenda.
Requinte e bom gosto: marcas da Fazenda União

Em 1991 eles compraram a União, restauraram, recolheram móveis e objetos do tempo do café e hoje têm, ao mesmo tempo, um verdadeiro museu e “uma casa de fazenda que recebe hóspedes”, como prefere definir João. Com dez quartos, a União é muito agradável e bem cuidada. Fazer um tour com o proprietário pelo interior da sede da fazenda é uma aula de história.

Imagem da casa onde era a antiga senzala.
Antiga senzala


Santos Dumont

Já Rosalina vê a história por meio da gastronomia, fazendo refeições com receitas resgatadas dos tempos do café e até de Santos Dumont. Sim, o pai da viação vira-e-mexe passava pela cidade. Afinal, para quem não sabe, os pais de Santos Dumont moraram na Fazenda do Casal, dos seus avós maternos. Foi em Rio das Flores, na Igreja de Santa Teresa D’Ávila, que ele foi batizado.

Pergunte à Rosalina a história de como conseguiu estas receitas com um sobrinho-neto de Santos Dumont, Jorge Henrique Dumont Dodsworth. Receitas que, segundo Jorge, o tio adorava, como a farofa de frutas cristalizadas e o suflê de goiabada ou de geléia de goiaba.


Culinária dos tempos do café

Da época da culinária escrava dos tempos do café, a fazenda oferece o pastel de angu (massa de fubá com polvilho e ovos; recheio de carne-seca) e o funduntum, feito com canjiquinha (milho moído em moinho de pedra) e recheado com carne de porco (frango) refogada, com agrião.

No mais, a base é a culinária mineira mesmo e explica-se: muitos dos barões do café vieram de Minas. O carro-chefe é um tal pernil de porco, com batatas caramelizadas (com açúcar mascavo e especiarias) ao forno e farofa. O pernil fica marinando num tempero feito com louro, suco de limão, especiarias, alho e pimenta-do-reino durante dois dias, antes de ir para o forno a lenha onde fica durante várias horas, assando lentamente.

Imagem da Rosalina sentada com um pernil de porco em seu colo.
Rosalina (sentada) e o seu pernil de porco

Mas o variado cardápio tem mais: carne-seca; frango cozido com mel, alecrim e mostarda; frango ao vinho (temperado no vinho, grelhado na manteiga e azeite; depois, forno com creme de leite fresco), bacalhau (trazido pelos portugueses, era muito consumido no Brasil colonial); paçoca de carne (feita com farinha de milho); tilápia grelhada com purê de banana ou aspargos ou palmito natural; abobrinha recheada com melado, nata de queijo-de-minas, farinha de rosca e queijo; bolinho de arroz; pato; licores; cachaça; doce de laranja cristalizada, que demora uma semana para fazer, como antigamente.

Imagem de uma grande folha onde estão colocados os bolinhos.
Bolinho de arroz

Hospedar-se na União é participar de um festival gastronômico por dia. “Costumo pesquisar o perfil do hóspede para fazer um prato, pois tem gente, por exemplo, que não come carne de porco”, diz Rosalina. Por falar em pesquisa, ela tem um cardápio todo especial com café: um delicioso pudim de café, bolo, musse, um molho especial para acompanhar doces e um especial licor de café, “muito consumido no tempo do ciclo do café”, informa.

Imagem de um lindo pudim de café.
Pudim de café


Café da manhã

Vamos fechar o nosso cardápio com o café-da-manhã. Para começar, a maior parte dos pães é feita na fazenda, como também a fantástica broa de milho, o pão de queijo, o queijo, as geléias. Como também é da fazenda o leite, o mel (o apiário fica dentro da mata) e a divina manteiga. A fazenda produz várias outras coisas, como aves, porco, verduras e hortaliças orgânicas. O que não produz, Rosalina consegue nas fazendas vizinhas, principalmente nas fazendas da família, como uma cachaça de alambique que vem da fazenda de um dos irmãos. Rosalina procura trabalhar sempre com produtos regionais e naturais.

Imagem de uma bela mesa com bolos, pães e frutas.
Geléias,pães e broa de milho. Tudo da fazenda

A União fica a cerca de cinco quilômetros do Centro da cidade. Para chegar até lá, pega-se a Estrada do Abarracamento, uma via alternativa que liga Rio das Flores a Vassouras e Paraíba do Sul. A partir da saída da cidade, são dois quilômetros no asfalto e mais um em estrada de terra, até a entrada da fazenda.


Meio italiana, meio mineira

Uma comida meio italiana, meio mineira. Com esse cardápio, a italiana Déborah Japelli recebe os grupos de turistas em sua Fazenda Campos Elíseos. Ela está no Brasil desde 2000 e veio por influência da família. “Meus tios sempre foram apaixonados pelo Brasil, alguns deles vieram morar aqui há muitos anos e eu resolvi segui-los.”

Foto: Divulgação
Imagem do interior da fazenda.
Detalhe do restaurante da Campos Elíseos  

A Campos Elíseos é uma fazenda de 1851 e passou por várias mãos até ser comprada na década de 1960 por Marcos Vieira da Cunha, bisneto do Visconde de Ipiabas, que restaurou estas e outras fazendas da região. Há alguns anos foi comprada pela família de Déborah, que a reformou totalmente, mantendo o estilo da época, transformando-a em uma fazenda histórica, que hospeda no esquema de turismo de habitação.

Na cozinha, Déborah dá o tempero ítalo-brasileiro na medida certa, segundo ela própria explica, fazendo “adaptações sem comprometer as receitas originais”. Um exemplo é o tiramisù, que faz muito sucesso entre os visitantes. Originalmente feito com queijo mascarpone, esse famoso doce italiano, parecido com o pavê, ali é feito com o brasileiríssimo requeijão. “Dá muito certo substituir um pelo outro. A sobremesa, que também leva cacau, café e açúcar, fica com a consistência de cheesecake”, diz a gourmande. “Tiramisù” é uma expressão quer dizer “levanta-te” ou “escolha-me”. Um dos motivos: a inclusão da cafeína, elemento estimulante.

Na fazenda também é possível degustar um caprichado café colonial, com pães, doces e bolos ou, ainda, almoçar. O cardápio tem desde a torta de abobrinha e pães recheados até a leitoa assada – que tem um preparo mais requintado e é servido mediante pedido prévio. Déborah revela que “a carne é posta para assar na madrugada anterior ao almoço”, por isso deve ser encomendada com antecedência de alguns dias. Para quem gosta de cachaça, lá é produzida e vendida a artesanal Sinhazinha. O charme do restaurante fica por conta do local onde está instalado: no porão da casa da fazenda.

Divulgação
Imagem de uma mesa com pães e salame.
Pães e salame 

O lazer ainda inclui pesca no açude, trilhas ecológicas, banho de cachoeira e piscina, visitas ao pomar e à horta e ordenha para retirada de leite fresquinho.
Importante ainda destacar que há um canil. Para quem se interessar pela hospedagem, Déborah indica que é preciso gostar de animais: “Criamos cães das raças Golden Retriever e Pug. Por isso, quem vier para cá tem que ser amante de cães e gatos, que estão por toda parte.”
 

Comida da roça

Chico Junior

Imagem da fachada da fazenda.

Fazenda Santo Inácio

A Fazenda Santo Inácio não é bem uma fazenda histórica. Antiga ela é, de 1835, mas já passou por diversas transformações e perdeu um pouco da arquitetura original. Contudo é muito agradável de se estar, principalmente se for para degustação do que a professora Vera Vale denomina “comida da roça”, uma especial e deliciosa comida da roça, diga-se de passagem. Podemos começar pelo chouriço de porco, preparado com todo o cuidado do mundo por ela e seu braço direito, a cozinheira Izabel. Tudo bem, não é todo mundo que gosta desse tipo de embutido feito com sangue de porco (criado na própria fazenda), mas, siga o conselho, dê ao menos uma provada.

Imagem da Dona Vera e Isabel.
Vera Vale e a cozinheira Izabel


O chouriço de Vera Vale

O sangue de porco talhado com limão é temperado com pimenta, sal e cheiro-verde. Em seguida, embute-se na tripa do porco, que foi muito bem lavada com limão, fubá e água. Cozinha-se o chouriço e, na hora de comer, frita-se. Muito bom.
Imagem de uma mesa com leitão, linguiça e chouriço.
O chouriço (direita) e o leitão pururuca

Até o início de 2006, a Santo Inácio era “apenas” uma fazenda de produção: porco, aves, ovos, queijo, feijão, hortaliças, verduras e, principalmente, leite. Celso, o marido de Vera, passava a semana toda na fazenda. Dona Vera, com a filha Ana Célia, o genro e as netas, na cidade. Até que ela, cozinheira das melhores, resolveu fazer da fazenda a casa da família e, por que não?, abrir a cozinha da fazenda, e seu imponente fogão a lenha, para o público.

Imagem do fogão cheio de comidas.
O imponente fogão a lenha da Santo Inácio

Assim, basta telefonar, falar com a própria Vera ou Ana Célia, fazer a reserva e por R$ 20 se fartar de comer uma boa comida. Se quiser, pode até encomendar o cardápio, que tem, entre outras coisas, o seguinte: feijão-preto (da fazenda), feijão-branco com dobradinha, lingüiça, feijão-de-tropeiro, quiabada com frango caipira, pernil, leitoa assada, costelinha, arroz com suã (a espinha dorsal do porco), macarrão com frango da roça, galinhada com feijão-branco, canjiquinha com costelinha, angu assado, coisas assim. “As pessoas chegam e logo pedem um ovinho frito”, diz dona Vera fazendo propaganda do seu ovo caipira.

Existe um tal de arroz marimbondo: arroz com caroço de feijão, torresmo, lingüiça, ovos, muito cheiro-verde e, para justificar o nome, pimenta. E o galopé criação da cozinheira Aparecida Martins de Oliveira, é um ensopado de galo com pé de porco cozido.

Ainda tem as sobremesas, principalmente o doce de leite, bem molinho, quase líquido, dá até para beber no copo, pouco açúcar (um quilo para dez litros de leite). Depois do doce de leite, o mais pedido é o pudim de café. A lista segue com as compotas de mamão e de abóbora, a goiabada, o pudim de leite, o arroz-doce, a rabanada, a pessegada, o curau de milho verde e os doces de laranja, de figo e de coco. Tudo pode ser acompanhado do queijo-de-minas feito no Laticínio Rio das Flores (Fazenda do Degredo), do sobrinho de Celso, e que fica pouco antes da entrada da fazenda, que produz o queijo Rio das Flores.
Ana Célia, filha de D. Vera se orgulha pelo fato da família não ter alterado seu estilo de vida em função do empreendimento. “Nosso dia-a-dia é o mesmo de sempre. Não montamos um restaurante convencional, com mesas, cadeiras. O que fazemos aqui é abrir as portas de nossa casa para as pessoas. Fazemos questão de preservar um clima informal para nossos visitantes”, diz.

A entrada da Santo Antônio fica logo depois do pórtico da cidade, para quem vem de Valença. Depois do pórtico, é só entrar na primeira à esquerda, estrada que fica ao lado do Laticínio Rio das Flores/Fazenda do Degredo.
 

O bacalhau do Escondidinho

O ambiente simples e aconchegante é ponto de encontro conhecido na cidade. Muitos vão ao Escondidinho para comer o carro-chefe da casa, o bacalhau à portuguesa. Sob a supervisão de Rosa Maria Lopes, o restaurante apresenta as versões a Gomes de Sá e assado com batatas ao murro (cozidas com a casca, amassadinha, com um banho de azeite fervente e lascas de alho frito). Ambos são servidos para dois. No cardápio, pratos da cozinha mineira também estão entre as opções.
Para sobremesa, o destaque fica por conta do pudim de café. “O pessoal que vem sempre elogia muito”, se orgulha Rosa Maria. A receita foi criada para integrar ao menu o produto cuja história é a marca registrada da região. Assim como a Cachaça do Juca das Palmeiras. “Ele já morreu, mas a produção continua e como é boa e artesanal a gente serve e vende aqui”, dá a dica. Agora, segundo a boca pequena, a sensação da casa é um licor de cachaça, produzido na região.


Baronesa do Vale

Imagem das cachaças.

Por falar em cachaça vamos fazer uma visita ao Sítio Santa Luzia, a três quilômetros do Centro da cidade, na RJ-145 (liga Rio das Flores a Manoel Duarte), onde o ex-metalúrgico Carlinhos Figueiredo produz em seu pequeno alambique a Baronesa do Vale. Com toda a paciência do mundo, Carlinhos recebe com prazer os visitantes que queiram conhecer o processo de produção da cachaça, vendo a moagem, a maturação e a destilação, e alambique de cobre.

Imagem do Carlinho.
Carlinhos Figueiredo

Depois que se aposentou, há cinco anos, Carlinhos começou a produzir a Baronesa. Para a fermentação do caldo-de-cana, usa fubá e farelo de arroz. Depois de destilada, a cachaça fica maturando oito meses em barris de jequitibá e castanha-do-pará. A garrafa da Baronesa custa R$ 12 e pode ser comprada ali mesmo.

Endereços e telefones
Escondidinho
Rodovia RJ-145 s/n.° – Centro. Tel.: (24) 2458-1037. É fácil de achar, embora fique bem escondidinho. Uma placa auxilia a identificação do local. Abre sextas e sábados para almoço e jantar e nos domingos e feriados nacionais somente para o almoço.
Fazenda Campos Elíseos
Estrada do Guarita, 2.800 – Sebastião de Lacerda. Tel: (24) 2488-2014. www.fazendacamposeliseos.com. E-mail: info@fazendacamposeliseos.com
Fazenda Santo Inácio
Estrada RJ-145 (Valença - Rio das Flores) s/n°. Referência: Fazenda do Degredo Laticínios, logo após o pórtico de entrada da cidade. Tel: (24) 2458-1307.
Fazenda União
Estrada do Abarracamento, km 3,5. Tels: (24) 2458-4102 / 2453-4145 / 9845-7351 / 9915-1210. E-mail: fazendauniao@yahoo.com.br
Sítio Santa Luzia / Baronesa do Vale Rodovia RJ-145, km 95. Tel: (24) 2458-0194. E-mail: cfigueiredoferreira@yahoo.com.br
 

 

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