Brasil, 11 de Março de 2010

Salinas

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salinas

A melhor do mundo, uai

Em algum lugar do mundo, um estrangeiro está, neste momento, aventurando-se no preparo de uma caipirinha feita com cachaça genuinamente brasileira. Ele quer incorporar um pouco do espírito e ginga deste místico país. Mas o que esse estrangeiro talvez não saiba é que está tomando uma aguardente destilada num alambique de coluna de inox, sem envelhecimento, como é a maioria das cachaças feitas para exportação.

Nada contra as cachaças industriais, muitas delas de ótima qualidade, mas aquele estrangeiro, assim como muitos brasileiros, ainda não descobriu onde é feita, segundo a maioria dos entendidos no assunto, talvez as melhores cachaças do planeta. O lugar onde o solo e o clima são ideais para ter uma boa qualidade de cana-de-açúcar, onde a destilação é em alambique de cobre e o envelhecimento de vários anos é feito em tonéis de madeiras especiais.

Imagem de um alambique de cobre
Detalhe do alambique de cobre da cachaça Preciosa

Esse lugar se chama Salinas. Uma cidade de bem com a vida, que ganhou a benção da terra e faz bom proveito disso. Com o cultivo da cana-de-açúcar e principalmente pela fabricação da cachaça de alambique. A produção da cachaça é tão levada tão a sério que ali foi criado o primeiro curso superior sobre o produto. Além disso, todo ano é organizado o Festival Mundial da Cachaça, onde produtores de todo o Brasil apresentam suas “branquinhas” sem entregar seus segredos.

Emily sasson
Imagem de muitos carroças puxadas por burrinhos estacionadas
Boa parte do transporte em Salinas é feito pelas carroças puxadas por burros

O primeiro criador e grande referência de uma “pinga” de qualidade foi o legendário Anísio Santiago. De temperamento arredio, nunca se dedicou a grandes lucros ou produções, apenas a uma cachaça de excelência inquestionável. Assim é a famosa e cobiçada Havana, que teve de trocar de nome e hoje leva o nome de seu autor.

Seu Tonho, da Boazinha e da Seleta

Anísio Santiago é louvado por todos os produtores, que seguem o exemplo e não deixam suas “caninhas” ficarem para trás. Entre as mais prestigiadas estão a Boazinha, Seleta e Saliboa do respeitado Antônio Rodrigues, o Seu Tonho. Suas cachaças são envelhecidas por cerca de dois anos, sendo a Boazinha em tonéis de bálsamo, a Seleta em umburana e a Saliboa em ipê amarelo. Cada uma tem seu aroma, sabor e personalidade próprios. “Cachaça de primeira tem que ser transparente, oleosa e sem ranço do alambique e da moenda - curtida e macia. Quanto mais velha, mais palatável”, ensina Seu Tonho.

Imagem de algumas das melhores cachaças do brasil
Seu Tonho produz duas das melhores cachaças do Brasil: Boazinha e Seleta

Ele é responsável pela metade de toda a produção anual da bebida em Salinas, chegando a 1,5 milhão de litros. É apenas o começo para este apaixonado, que diz que só vai cortar cabelo e barba quando atingir sua meta, no ano de 2010:

“Minha meta são dez milhões de litros por ano, sendo 50 mil por dia. E com o lucro vou fazer 500 casas populares (já fiz cinco, então só faltam 495), construir dez creches de 50 vagas para tirar as crianças da região da rua e profissionalizá-las. Quero ver meus filhos com mestrado e doutorado e ainda comprar um helicóptero de 30 passageiros e um jatinho de 50 para mim, se Deus quiser!”

E que ninguém duvide que ele vai chegar lá porque, como ele mesmo diz, cachaça se consome na tristeza e na alegria, no nascer e no morrer, no medo e na coragem. É a segunda bebida mais consumida no país, perdendo apenas para a cerveja. Antônio Rodrigues mantém duas fazendas, Bananal e Indaiá, para o cultivo da cana e produção do bálsamo, tem uma engarrafadora e ainda uma tanoaria junto da loja no centro. Todas abertas à visitação.

Seu Sabino

Mas calma, é preciso rodar mais um pouco para mergulhar de vez nessa “água que passarinho não bebe”. E a visita à fazenda de Sabino Pinto de Souza escancara as porteiras do universo da “birita”. Ele é produtor da Preciosa, Brinco de Prata, Brinco de Ouro, Puricana e a Cabinosa bálsamo, burana e jequitibá.

Imagem de um gigantesco canavial
Seu Sabino no meio do seu precioso canavial

Seu Sabino revela que toma 20 litros de cachaça por mês. Ele tem mais seis irmãos homens, que gostam com a mesma intensidade. Ou seja, não deram conta de comprar e decidiram realizar seu próprio “elixir”. Ele tem uma safra de 1996, envelhecida em um tonel de bálsamo de mais de 50 anos, que não faz a menor força pra vender. Essa cachaça ganhou aroma e sabor como poucas.

Erva-Doce, para mulheres

Depois de tantas provinhas aqui e ali, talvez o visitante desacostumado já esteja, digamos assim, de pileque. Então é a hora certa para partir para a Erva-Doce, cachaça feita para mulher não fazer careta. Ela é mais suave e adocicada, sendo envelhecida em dois processos: primeiro por uma madeira especial e secreta por seis meses, depois em jequitibá-rosa, por mais dois anos, na Fazenda Poções.

O produtor e presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (Apacs), João Moraes Pena, explica que seu público-alvo são jovens e mulheres que ainda não tinham uma bebida mais próxima a seu paladar. Sua mulher foi a degustadora oficial e, depois de seis anos de pesquisa, chegaram à fórmula ideal.

A Associação tem 35 marcas registradas, como a Canarinha, a Indaiazinha, a Lua Cheia e a Asa Branca, para citar apenas mais algumas. Todas de padrão elevado e à espera da apreciação dos bem-aventurados. Passear pelas plantações de cana, alambiques, dornas de fermentação e tonéis de envelhecimento é conhecer de perto um símbolo nacional. É preciso saber estimar, pois cachaça é coisa nossa. Desde os primeiros movimentos de independência, quando a bebida era tomada nas reuniões conspiratórias dos insurretos, até a efetiva proclamação da independência, em 1822, a cachaça foi ícone de resistência e demonstração de nacionalismo e brasilidade. E, no que depender de Salinas, sempre será.

No ranking das 20 melhores cachaças do Brasil de 2008, elaborado pela revista Play Boy, Salinas emplacou sete, incluindo a segunda colocada, Anísio Santiago, atrás da também mineira Vale Verde, de Betim. As outras classificadas de Salinas são: Canarinha (3ª), Boazinha (6ª), Piragibana (10ª), Indaiazinha (12ª), Lua Cheia (16ª) e Seleta (18ª). Ou seja, 35% das 20 melhores cachaças do Brasil são de Salinas. Bela marca!  

Endereços e telefones
Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas
Av. João Pena Sobrinho 345 - Alvorada.
Tel.: (38) 3841-3431.
Cachaça Preciosa
Fazenda Vargem Grande - Bananal (fica na BR-342).
Tels.: (38) 3841-1589 / 1136.
Erva-Doce
Praça JK, 100 – Panorama (loja). A Fazenda Poções fica na Rodovia Salinas-Ubelita.
Tel.: (38) 3841-1677.
www.ervadocecachaca.com.br
Seleta e Boazinha
Rua Barão do Rio de Branco 333 - Centro (loja).
Tels.: (38) 3841-1254 / 3008.
www.cachacaseleta.com.br

 

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