Em algum lugar do mundo, um estrangeiro está, neste momento, aventurando-se no preparo de uma caipirinha feita com cachaça genuinamente brasileira. Ele quer incorporar um pouco do espírito e ginga deste místico país. Mas o que esse estrangeiro talvez não saiba é que está tomando uma aguardente destilada num alambique de coluna de inox, sem envelhecimento, como é a maioria das cachaças feitas para exportação.
Nada contra as cachaças industriais, muitas delas de ótima qualidade, mas aquele estrangeiro, assim como muitos brasileiros, ainda não descobriu onde é feita, segundo a maioria dos entendidos no assunto, talvez as melhores cachaças do planeta. O lugar onde o solo e o clima são ideais para ter uma boa qualidade de cana-de-açúcar, onde a destilação é em alambique de cobre e o envelhecimento de vários anos é feito em tonéis de madeiras especiais.

Esse lugar se chama Salinas. Uma cidade de bem com a vida, que ganhou a benção da terra e faz bom proveito disso. Com o cultivo da cana-de-açúcar e principalmente pela fabricação da cachaça de alambique. A produção da cachaça é tão levada tão a sério que ali foi criado o primeiro curso superior sobre o produto. Além disso, todo ano é organizado o Festival Mundial da Cachaça, onde produtores de todo o Brasil apresentam suas “branquinhas” sem entregar seus segredos.

O primeiro criador e grande referência de uma “pinga” de qualidade foi o legendário Anísio Santiago. De temperamento arredio, nunca se dedicou a grandes lucros ou produções, apenas a uma cachaça de excelência inquestionável. Assim é a famosa e cobiçada Havana, que teve de trocar de nome e hoje leva o nome de seu autor.
Anísio Santiago é louvado por todos os produtores, que seguem o exemplo e não deixam suas “caninhas” ficarem para trás. Entre as mais prestigiadas estão a Boazinha, Seleta e Saliboa do respeitado Antônio Rodrigues, o Seu Tonho. Suas cachaças são envelhecidas por cerca de dois anos, sendo a Boazinha em tonéis de bálsamo, a Seleta em umburana e a Saliboa em ipê amarelo. Cada uma tem seu aroma, sabor e personalidade próprios. “Cachaça de primeira tem que ser transparente, oleosa e sem ranço do alambique e da moenda - curtida e macia. Quanto mais velha, mais palatável”, ensina Seu Tonho.

Ele é responsável pela metade de toda a produção anual da bebida em Salinas, chegando a 1,5 milhão de litros. É apenas o começo para este apaixonado, que diz que só vai cortar cabelo e barba quando atingir sua meta, no ano de 2010:
“Minha meta são dez milhões de litros por ano, sendo 50 mil por dia. E com o lucro vou fazer 500 casas populares (já fiz cinco, então só faltam 495), construir dez creches de 50 vagas para tirar as crianças da região da rua e profissionalizá-las. Quero ver meus filhos com mestrado e doutorado e ainda comprar um helicóptero de 30 passageiros e um jatinho de 50 para mim, se Deus quiser!”
E que ninguém duvide que ele vai chegar lá porque, como ele mesmo diz, cachaça se consome na tristeza e na alegria, no nascer e no morrer, no medo e na coragem. É a segunda bebida mais consumida no país, perdendo apenas para a cerveja. Antônio Rodrigues mantém duas fazendas, Bananal e Indaiá, para o cultivo da cana e produção do bálsamo, tem uma engarrafadora e ainda uma tanoaria junto da loja no centro. Todas abertas à visitação.
Mas calma, é preciso rodar mais um pouco para mergulhar de vez nessa “água que passarinho não bebe”. E a visita à fazenda de Sabino Pinto de Souza escancara as porteiras do universo da “birita”. Ele é produtor da Preciosa, Brinco de Prata, Brinco de Ouro, Puricana e a Cabinosa bálsamo, burana e jequitibá.

Seu Sabino revela que toma 20 litros de cachaça por mês. Ele tem mais seis irmãos homens, que gostam com a mesma intensidade. Ou seja, não deram conta de comprar e decidiram realizar seu próprio “elixir”. Ele tem uma safra de 1996, envelhecida em um tonel de bálsamo de mais de 50 anos, que não faz a menor força pra vender. Essa cachaça ganhou aroma e sabor como poucas.
Depois de tantas provinhas aqui e ali, talvez o visitante desacostumado já esteja, digamos assim, de pileque. Então é a hora certa para partir para a Erva-Doce, cachaça feita para mulher não fazer careta. Ela é mais suave e adocicada, sendo envelhecida em dois processos: primeiro por uma madeira especial e secreta por seis meses, depois em jequitibá-rosa, por mais dois anos, na Fazenda Poções.
O produtor e presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (Apacs), João Moraes Pena, explica que seu público-alvo são jovens e mulheres que ainda não tinham uma bebida mais próxima a seu paladar. Sua mulher foi a degustadora oficial e, depois de seis anos de pesquisa, chegaram à fórmula ideal.
A Associação tem 35 marcas registradas, como a Canarinha, a Indaiazinha, a Lua Cheia e a Asa Branca, para citar apenas mais algumas. Todas de padrão elevado e à espera da apreciação dos bem-aventurados. Passear pelas plantações de cana, alambiques, dornas de fermentação e tonéis de envelhecimento é conhecer de perto um símbolo nacional. É preciso saber estimar, pois cachaça é coisa nossa. Desde os primeiros movimentos de independência, quando a bebida era tomada nas reuniões conspiratórias dos insurretos, até a efetiva proclamação da independência, em 1822, a cachaça foi ícone de resistência e demonstração de nacionalismo e brasilidade. E, no que depender de Salinas, sempre será.
No ranking das 20 melhores cachaças do Brasil de 2008, elaborado pela revista Play Boy, Salinas emplacou sete, incluindo a segunda colocada, Anísio Santiago, atrás da também mineira Vale Verde, de Betim. As outras classificadas de Salinas são: Canarinha (3ª), Boazinha (6ª), Piragibana (10ª), Indaiazinha (12ª), Lua Cheia (16ª) e Seleta (18ª). Ou seja, 35% das 20 melhores cachaças do Brasil são de Salinas. Bela marca!