Brasil, 05 de Fevereiro de 2012

Piranhas - O sabor do cangaço

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Mapa da Região: 
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Fotos: Chico Junior
Piranhas: pequena e agradável, às margens do São Francisco.
Piranhas: pequena e agradável, às margens do São Francisco

Vale a pena descobrir o sabor desse lugar ainda pouco conhecido pelos turistas. Piranhas é uma pequenina cidade alagoana, divisa com Sergipe, de nome exótico, belas paisagens e charmosa arquitetura. Com igrejas e sobrados dos séculos 18 e 19 tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional, traz em sua bagagem momentos emocionantes, como a exposição em praça pública (na frente ao prédio onde hoje é a sede da Prefeitura) das cabeças cortadas de Lampião, de Maria Bonita e de outros nove cangaceiros mortos pela volante do Tenente Bezerra na Grota do Angico, em Poço Redondo, já em território sergipano. Resumindo, Piranhas é um lugarzinho todo especial, situada numa escarpa junto ao rio. Vielas estreitas, entre rochas, dão um charme à cidade.

A famosa Angico é uma das trilhas que fazem parte da “Rota do Cangaço”, dentre os passeios turísticos da região, um dos mais procurados pelos visitantes interessados em conhecer a história do sertão brasileiro. Lugar das andanças de Lampião e local que fica a grota, onde foi morto. O roteiro começa em Piranhas, com visitação ao Museu do Sertão e segue com o passeio de catamarã ou barco para visitação a Grota do Angico e inclui passagem pela Ilha do Ouro, além de visitas opcionais á hidrelétrica de Xingó e ao Museu Arqueológico. O passeio é belíssimo, em alguns trechos pode-se nadar ou simplesmente tomar banho sob o sol nordestino. Para não correr o risco de perder a aventura é preciso marcar com antecedência no hotel no qual estiver hospedado para a formação de grupo.

Grota do Angico, onde sucumbiu Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros.
Grota do Angico, onde sucumbiu Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros

A partir da margem do rio, o passeio começa no Restaurante Angicos e é seguido a pé por uma trilha no meio da caatinga. A trilha é sempre feita com um guia, que conta como se deu o ataque a Lampião e seu bando. Se o visitante der a sorte de ter Jairo como guia, aí terá uma verdadeira aula sobre o cangaço. Jairo Luis de Oliveira é técnico em turismo, dono da Angico Tour e, principalmente, um estudioso e pesquisador de história do cangaço. Vai andando na trilha e falando do cangaço e do ambiente da caatinga, mostrando cada árvore e arbusto ou cacto encontrados na trilha. Para diante de uma planta de urtiga e faz uma revelação: “Vocês sabiam que do caule da urtiga se faz uma salada deliciosa?” O que é confirmado por Angecila, esposa de Jairo.

Jairo no início da Trilha de Angicos: aula sobre o cangaço.
Jairo no início da Trilha de Angicos: aula sobre o cangaço

 

Gastronomia do cangaço

 

Jairo cuida da história e Angecila da gastronomia. Há mais de 10 anos ela pesquisa e estuda a gastronomia sertaneja e cangaceira e, assim, consegue dar um diferencial fantástico à culinária do Restaurante Angicos, de propriedade da irmã Luciana, que, sempre sorridente, recebe os visitantes vestida a caráter, ou seja, de cangaceira estilizada. O diferencial é a utilização da polpa de dois tipos de cactus - o cabeça-de-frade e o facheiro - como ingredientes de alguns pratos do lugar. O primeiro é um cactus pequeno, baixinho e gordinho, com uma coroa vermelha (a flor) na ponta. O seu produto mais famoso é o doce de cabeça-de-frade, que lembra uma cocada, mas tem gosto parecido com doce de mamão, uma delícia.

O cacto cabeça-de-frade e o doce (ao lado).
O cacto cabeça-de-frade e o doce (ao lado)

Ainda no campo dos doces. Da polpa do facheiro, ela faz uma igualmente deliciosa geléia. “Criamos novos sabores que tenha a ver com a região, com a caatinga. Sempre a partir de receitas que eram usadas na época do cangaço”, diz Angecila. Ela informa que o doce existe desde o século XIX e era consumido pelos cangaceiros. “Há muito tempo o sertanejo come cacto. E feito assim: tira-se o espinho, a casca e utiliza-se a polpa, cortada em tiras, que são lavadas e fervidas. Depois, cozinha-se com açúcar, cravo moído e chá de erva-doce.

O cabeça-de-frade.
O cabeça-de-frade

Com o facheiro Angecila faz, ainda, o seu prato mais exótico: filé de surubim com tiras do cacto refogadas por cima. Diferente e gostoso. Mas se o visitante não quiser se arriscar no exótico há a opção do campeão dos pedidos: filé de surubim ao molho de macaxeira (mandioca), cozido com temperos, cenoura e batata. Outra delícia da casa.

Salada de mamão verde e filé de surubim ao molho de macaxeira
Salada de mamão verde e filé de surubim ao molho de macaxeira

Além dos pratos apresentados acima e da exótica salada de caule de urtiga (“é perfeita”, diz Angecila), o visitante tem à escolha para o almoço: peixe empanado coberto com facheiro refogado, salada de mamão verde (mamão cortado em cubinhos e refogado em manteiga com coentro), pitu, robalo, piabinha frita (a sardinha do rio) e posta de surubim grelhada.

Para acompanhar, suco de caju feito na hora e os atrativos principais: a brisa e o som e a vista do rio.

As irmãs Angecila e Luciana, do Angicos
As irmãs Angecila e Luciana, do Angicos

 

Contatos

 

Restaurante Angicos. Tel: (82) 8823-3973. Só se chega por barco (10’ a partir de Piranhas)
Angico’s Tur (Jairo). Tel: (82) 8823-3973
Prefeitura de Piranhas. Tel: (82) 3686-3013

 

Quiosque Beira-Rio

 

Em Piranhas, no Quiosque Beira-Rio, se come uma das pituzadas mais famosas de todo o estado de Alagoas. A paulista Cléo chegou na região em 1993 para ser professora em Xingó. Gostou do lugar e se apaixonou por Piranhas. Trouxe o marido, que também se apaixonou, e ficou. Quando Cléo abriu o quiosque, só vendia salgadinhos. Depois passou a servir o pitu e aí veio o sucesso.

O pitu é pescado ali mesmo, em armadilhas chamadas covos, colocadas junto às pedras onde o bicho é encontrado. É mantido vivo até a hora de ir para a panela, junto com tomate, cebola, pimentão, coentro, leite de coco e um pouco de água. De 15 a 20 minutos depois, está pronto. Do molho, faz-se o pirão, delicioso, que acompanha o prato.

Mas Cléo faz uma reclamação. “Infelizmente, o nosso pitu, do São Francisco, está acabando. Está em extinção. O pessoal pesca os pequenininhos e, aos poucos vai acabando. Pitu grande, daqueles com garras, só em foto”, desabafa. Falar nisso, essa é uma reclamação de muitos pescadores da região.

Cléo: “Pitu grande só em foto”
Cléo: “Pitu grande só em foto”

Além do pitu, Cléo serve também surubim, tilápia, tucunaré e postas fritas de tubarana, o dourado do rio. Isso sem falar que é muito agradável comer no varandão do quiosque, na beira do rio.

 

O cari do Lampião

 

O Lampião
O Lampião

Embora seja um peixe característico do São Francisco, o cari não é fácil de ser encontrado em qualquer mesa. É um peixe feio, escamas grossas, mas de carne apreciada na região. No Baixo São Francisco, o restaurante Lampião é o único que o põe na mesa. A especialidade da casa é o cari ao queijo. O peixe inteiro é cozido; depois é triturado e temperado. Colocam-se camadas de cari, banana, creme branco e, por último, queijo. Depois, forno.

Paulo Amaral e o cari
Paulo Amaral e o cari

Paulo Amaral, o proprietário, é de Triunfo (PE), mas está em Piranhas há mais de 20 anos. Ele informa que a idéia de usar o cari no cardápio e, daí, virar a marca da casa, foi do cozinheiro do restaurante, o cearense Tarcísio Parente. Ali, o cari também é servido em filés. “Antigamente”,diz Paulo, o cari era um peixe de segunda categoria. Mas aí a gente começou a trabalhar com ele e as pessoas descobriram o sabor do peixe, que só dá onde tem pedras, nas locas, e é abundante nessa região do São Francisco.

Além do cari, experimente: pitu, surubim, tucunaré a carneiro guisado acompanhado de feijão verde, arroz e salada.

Endereço e telefone
Avenida Beira-Rio 100. Tel: (82) 9986-7382, 9965-3556, 3686-3335

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