A culinária de Natal reflete a culinária do Rio Grande do Norte, como um todo. Como está na beira do mar, são várias as opções de peixes e camarões. Mas, ao mesmo tempo, traz para a capital o sabor do sertão, como a carne-de-sol, a paçoca, o queijo de coalho, a carne de bode, a macaxeira, o arroz de leite.
Dentre os vários bares e restaurante da cidade, dois se destacam e sintetizam a culinária regional do Rio Grande do Norte. E ambos são, talvez, os mais procurados da região. Um, o Mangai, fica em Natal mesmo. O outro, Paçoca de Pilão, fica ali do lado, na praia de Pirangi do Norte, conhecida em todo o Brasil por ter uma atração inusitada, o maior cajueiro do mundo.
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O clima do Mangai é o clima do sertão, na decoração, nos trajes dos garçons e garçonetes e no jeito de servir. Ali se encontra de tudo um pouco. É um restaurante enorme, com espaço para até 250 pessoas, self-service e com um esquema quase industrial de produção das comidas. Mas, apesar do, digamos, assim, “esquema industrial”, a comida é saborosa. Simplesmente porque atrás de tudo está a paraibana arretada Leneide Maia Tavares, que coordena e fiscaliza a tudo e a todos com o maior rigor, em nome da qualidade. Leneide se refere ao seu sistema self-service de “mete a mão e tira”. Um detalhe: o Mangai não serve bebida alcoólica, só sucos naturais e caldo de cana, tudo feito na hora.
“Nasci, no mato, me criei no mato, mas o mato não sai de mim”, diz Leneide, que abriu o primeiro Mangai há 15 anos, em João Pessoa, para vender os produtos que a fazenda produzia. Depois, passou a vender tapioca. Em seguida, café para acompanhar a tapioca. Aí introduziu o rubacão (baião-de-dois). “Uma coisa foi puxando a outra e chegamos aonde chegamos”, diz.
No Mangai, o que mais sai é a carne-de-sol com nata (carne-de-sol desfiada com nata, espécie de creme de leite, seguido do pernil de bode. Mas tem também a tradicional buchada, o arroz de leite, ova de peixe, a gororoba (creme de macaxeira com queijo e carne). E os tradicionais doces de leite, goiaba, mamão e rapadura com queijo. Para quem opta pelo vasto e variado café da manhã, com tudo feito na hora, até os pães, um requinte: leite de vaca tirado na hora.
Praticamente tudo o que se consome no Mangai é produção própria e vem da fazenda da família em Catolé do Rocha, na Paraíba, e de um sítio, também da família, próximo de João Pessoa. O queijo, o leite, a manteiga, a galinha, o bode, o ovo, a rapadura, frutas, tudo da fazenda. Hoje, cerca de 300 famílias vivem do “sistema Mangai”.
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Ainda em Natal, dois outros endereços merecem uma visita. O primeiro é o restaurante Camarões, em Ponta Negra, onde se come belos pratos com camarões preparados das mais variadas maneiras, ensopados, assados, fritos, com molho de manga etc. O outro é a Casa de Taipa, onde Dúnia Milagres, carioca que trocou o Rio por Natal há 10 anos, oferece aos clientes cerca de 40 tipos de tapiocas com recheios doces e salgados, com destaque para as de carne-de-sol e de camarão. Com o sucesso, Dúnia abriu uma cuscuzeira, com mais de 15 opções.
A Praia de Pirangi do Norte, no município de Parnamirim, a cerca de 15 quilômetros de Natal, é muito procurada por duas atrações turísticas: as suas piscinas naturais de corais, de águas límpidas, transparentes, e o maior cajueiro do mundo. Uma anomalia genética provocou o crescimento exagerado da árvore. Sua copa, acima do emaranhado de troncos e galhos, sempre partindo de uma única raiz, chegou aos 8.500 m². E tudo isso ainda dá caju? E se dá! São cerca de 70 a 80 mil por ano, na safra, quando o turista pode provar o caju tirado do pé, na hora.
Bem ali pertinho está um dos melhores restaurantes do Rio Grande do Norte, o Paçoca de Pilão, fundado por d. Adalva Rodrigues e o filho Giovani. Na verdade, a idéia de abrir, não um restaurante, mas um bar, foi de Giovani, cansado da vida de bancário. Mas a mãe insistiu em um restaurante, onde pudesse dar vazão às suas criações culinárias desde os tempos do Vale do Seridó, onde nasceu e se criou. O nome, inclusive, é seu. “Um dia acordei no meio da noite e disse para o meu marido: achei o nome do restaurante”, diz d. Adalva. “A paçoca de pilão é uma coisa da minha terra, do povo da minha terra”.

D. Adalva se orgulha de ter sido a primeira a introduzir a paçoca de pilão como refeição. “Antes, os bares e restaurantes só serviam a paçoca como aperitivo, mas no sertão é prato de sustança mesmo”. E, tal como no Seridó, a paçoca vem acompanhada de feijão verde, arroz de leite, macaxeira e banana.
No cardápio da casa, além de sua famosa paçoca e da não menos famosa carne-de-sol, feita no próprio restaurante, galinha à cabidela, a buchada, o picado (os mesmo ingredientes da buchada, sem o bucho, ou seja, o estômago do bode ou carneiro), o carneiro torrado (assado), o pernil de carneiro, a peixada e diversos pratos com camarão.
Por falar nisso, o prato de maior sucesso da casa é uma fusão do mar com o sertão, o camarão à Paçoca de Pilão, um camarão servido com arroz de leite. Uma delícia. Outro bastante pedido é o camarão ao cajueiro, que nada mais é do que camarão ensopado com caju.
A paçoca de pilão de d. Adalva
Em primeiro lugar soca-se a carne-de-sol desfiada em um pilão de madeira, aos poucos, pacientemente, trabalho que leva horas. “O pilão tem que ser de madeira, que impede o ressecamento da carne; a verdadeira paçoca tem que ser molhadinha”, ensina d. Adalva. Refoga-se a cebola roxa em rodelas e mistura-se a carne socada. Em seguida adiciona-se, aos poucos, farinha de mandioca. E vai misturando. Por fim, manteiga de garrafa, também conhecida como manteiga do sertão.
Camarão à Paçoca de Pilão
Faz-se o arroz de leite. O arroz de leite é feito com arroz da terra, ou arroz do sertão, uma espécie de arroz integral, meio avermelhado, cozido na água e sal. Depois de cozido, acrescenta-se leite, manteiga de garrafa e queijo de coalho. Se for preciso, mais sal. Bem, unta-se uma forma refratária com manteiga de garrafa e coloca-se uma camada de camarões médios ou graúdos, cozidos com cebola em rodelas e manteiga de garrafa. Cobre-se com o arroz de leite. De novo, uma camada de camarões. Por cima, queijo de coalho e leva-se ao forno para gratinar.
Um sucesso.