Brasil, 30 de Dezembro de 2008

Goiás

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Mapa da Região: 
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Com as investidas bandeirantes, às margens do Rio vermelho, Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, fundou em 1726, o Arraial de Sant’Anna. Pouco mais de uma década depois, já elevada à condição de “vila administrativa”, recebe o nome de Vila Boa de Goiaz. Nesta época, ainda pertencia à Capitania de São Paulo, até que em 1744 foi criada a Capitania de Goiaz. Hoje, o antigo arraial é conhecido apenas como cidade de Goiás, como preferem seus habitantes, que para seu desgosto ainda ouvem a querida cidade ser chamada de Goiás Velho.
Com o fim do ciclo do ouro, a agricultura e a pecuária passam a ser as atividades econômicas predominantes. No início dos anos 30, o interventor do estado, Pedro Ludovico Teixeira, assina o decreto de transferência da velha capital para Goiânia, o que garantiu a preservação da cidade que se tornou Patrimônio Histórico da Humanidade em 2001. As ruas de pedra, casarios, museus e igrejas do período colonial estão em perfeito estado de conservação.
A cidade de Goiás inspira muitos artistas que residem na cidade, como Goiandira Couto, que pinta quadros com areia colorida que recolhe na Serra Dourada e tem obras em vários países da Europa. Ou que residiram, como Cora Coralina, famosa poetisa e doceira que mostrou ao Brasil o talento das prendadas doceiras da região, imortalizando-as em seus livros e declarações.

O doce dos anjos

A confecção do alfenim, por exemplo, doce de origem árabe, trazido ao Brasil pelos portugueses foi citado pela poetiza em entrevista ao jornal O Popular, de 6 de novembro de 1999: “(...) O alfenim é único, e só os dedos de fada das humildes confeiteiras goianas o sabem fazer com tão rara perfeição (...)”.

Alfenin

Hoje, apenas uma confeiteira faz o ilustre doce, Dona Sílvia Curado. Incentivada por parentes e pela amiga e folclorista Regina Lacerda, hoje utiliza seu precioso talento como uma profissão. Suas mãos são, sem dúvida, de fadas, como disse a poetisa. O ponto do doce é algo tão delicado que a temperatura das mãos pode estragar a massa. “Minhas mãos são mais frias, ideal para a modelagem. Mãos quentes endurecem a massa”, afirma.
Depois que a massa endurece não pode ser mais utilizada. Quem comemora são as crianças, que recebem a “bala” de bom grado. O tempo também influencia no trabalho de D. Sílvia. “Trabalhando na massa percebo quando o tempo vai mudar. O tempo manda na gente”, reflete sabiamente.

Dona Silvia

O polvilho é utilizado nas mãos para “refrescar” a massa, que é manipulada ainda quente. A partir daí surgem aves, peixes, gatos, jacarés, flores e chapéus, dentre outras pequeninas graciosidades que, depois de secos, são pintados com corante vegetal de acordo com a imaginação da artista. Todo o processo é feito à mão, sem a utilização de formas.
Quando a forma é utilizada, o doce recebe o nome de verônica, feito apenas no formato de pomba, que representa o divino espírito santo e é produzido para distribuição na Festa do Divino, realizada após a Páscoa, durante as comemorações de Pentecostes. Geralmente a data cai no mês de maio ou junho.
Dona Sílvia também recebe encomendas para fazer outro doce que recebeu o nome de camafeu, também feito em forminhas e que dispensa comentários. Todos esses doces e mimos são feitos e vendidos em sua própria casa, como fazem a maioria das doceiras locais.
Outro talento culinário é Dona Divina Pimenta, que, com finas tiras de coco, esculpe delicadas rosas. Doceira de mão cheia, também produz licores e outros doces, mas a procura pelas pequenas e trabalhosas flores é grande, não lhe sobrando muito tempo.
Todo o processo é delicado. Desde a retirada das tiras de coco, feito com uma plaina - um pequeno instrumento de madeira com uma afiada navalha na ponta -, até a modelagem e pintura das rosas, que podem ser amarelas, vermelhas, verdes ou cor de rosa. “Muitas vezes as pessoas não imaginam que são doces e sim enfeites”, orgulha-se.

Alfenin

O empadão do Dalí

No cardápio de muitos restaurantes e lanchonetes do estado o empadão goiano está presente. Vale a pena procurar e seguir indicações para saborear o legítimo. “O original é o da Alicinha do Dalí” é a informação mais enfática que alguém pode receber, principalmente vinda de uma nobre e antiga moradora da cidade, chamada Antolinda Borges, conhecida como Tia Tó. Presidente do Museu de Arte Sacra da Igreja da Boa Morte e amiga da poetisa Cora Coralina, Tia Tó é considerada uma guardiã da cultura e costumes da cidade.

Empadao

Empadao

Melhor indicação seria impossível e, sem dúvida, o empadão servido no restaurante da Dona Alice de Santana, o Dalí, é simplesmente delicioso.

Pastelim

Uma doce surpresa foi o Pastelim, uma variação do português Pastel de Belém. Em Goiás ele é recheado com doce de leite. A massa, parecida com a de uma empada, é recheada e levada ao forno. Depois de assado é polvilhado com canela em pó; pode ser servido ainda quentinho. Segundo D. Alice, o diferencial do pastelim do seu restaurante é o doce de leite caseiro, feito no tacho com leite trazido diretamente da fazenda, casca de laranja e baunilha.

Pastelin

Renascimento do barro

A maioria dos alimentos é preparada ou servida em panelas e cumbucas de cerâmica feitas na cidade de Goiás. Em 1977 foi fundada a Associação dos Artesãos de Goiás pelo Frei Marcos Lacerda, pároco da Igreja da Nossa Senhora do Rosário. “O objetivo era reunir as pessoas e resgatar e incentivar a cultura popular pelo artesanato, que é um produto visível e fácil de divulgar”, diz ele.
Para Frei Marcos o artesanato foi descaracterizado por pedidos de intermediários que queriam cópias de peças de outros estados, produzidas com outros materiais como a pedra-sabão, por exemplo, produto característico de Minas Gerais.
A rusticidade e o caráter utilitário são característicos das peças de barro produzidas em Goiás, que, segundo Frei Marcos, são uma herança cultural indígena da região. São inúmeras as peças feitas para serem utilizadas na culinária. Alguns exemplos são a sopeira, jogos de travessa, moringa, farinheira, buião (pote de cerâmica para cozinhar feijão), fruteiras e até jogos de chá. As peças podem ser utilizadas no fogão e forno convencionais, à lenha e, segundo garantem, até no microondas.
Cerca de 30 artesãos expõem suas peças na associação, que disponibiliza a matéria-prima retirada em mutirão das várzeas próximas à cidade. Estas ações garantem o sustento de algumas famílias, como a da artesã Luzia dos Santos Moraes, que produz e vende panelas e travessas de cerâmica com a ajuda da associação. “Antes não sabia como vender, hoje vendo diretamente para o consumidor utilizando a loja da associação”. A loja fica em uma sala em frente à igreja da Nossa Senhora do Rosário.

Artesanato
 

A Vila Esperança

Outro trabalho importante de resgate cultural é feito na cidade. Este, com descendentes de quilombolas da região e crianças de famílias pobres. O projeto do espaço Cultural Vila Esperança teve início há 15 anos com o intuito de trabalhar com a afirmação da identidade cultural das crianças de origem indígena e afrodescendentes.
“Nosso trabalho ensina de forma lúdica e artística as questões consideradas fundamentais para a conquista da auto-estima e da cidadania”, diz a italiana Lucia Agostini, uma das fundadoras da “Vila”.
Entre as atividades desenvolvidas com a comunidade está o resgate culinário. Pratos como vatapá, acarajé, entre outros comuns na Bahia, são feitos de forma comunitária nos dias de festa.

Quinzenalmente é realizado o dia festivo Ojó Odé, que recebe a comunidade e visitantes. Na programação desta festa podemos citar a leitura de histórias africanas, danças e cantos, percussão, capoeira e oficina de culinária africana, onde crianças e adultos aprendem a preparar pratos como o acarajé, purê de inhame, e manjar. Há também o ensaio do afoxé, algo que ninguém imagina encontrar no interior de Goiás.

Assim como a comemoração afro, são realizados, o Porancê Poranga, confraternização para a vivência dos costumes indígenas, onde também acontecem, aulas de música, artesanato e, novamente, a oficina culinária. E desta vez os pratos ensinados e feitos por quem participa da festa são a mandioca com carne, beiju, polvilho, farinha e pratos a base de milho.

O projeto sem fins lucrativos utiliza como fonte de renda, para manter a Vila Esperança, uma loja onde são vendidos produtos africanos e de umbanda. E um pequeno e simpático café chamado Grão Café Realejo, onde são servidos deliciosos crepes com sabores bem regionais como frango com pequi, carne com guariroba, milho verde, cajú, goiaba com queijo, doce de leite e abóbora com côco. No Grão café ainda há um espaço para apresentações teatrais e de música.

Endereços e telefones
Alfenin Dona Sílvia Curado – Praça Brasil Caiado n° 38. Tel: (62) 3371-1312
Dona Divina Pimenta - Travessa Carmo nº 2. Tel: (62) 371-1484 ou (62) 9253-8275
Restaurante Dalí – Rua 13 de Maio, n° 26, Centro. (62) 3372-1640
Associação dos Artesãos de Goiás – Largo do Rosário, n° 12. Tel: (62) 3371-1116
Espaço Cultural Vila Esperança – Rua Padre Felipe Leddet, n° 32. Tel: (62) 3371-2132
Grão Café Realejo - Rua Dom Cândido Penso, nº 26. Tel: (62) 3371-3294