Por Ana Virginia Delrieu (texto e fotos)
Cagliari, Itália - Selvagem, jet-set, rústica, moderna e arqueológica…a Sardenha é tudo isto ao mesmo tempo. Os meses do verão europeu são os mais procurados pelos turistas. Eu já estive lá em julho e, claro, é a melhor época para se tomar banho de mar. Contudo, visitar a ilha na primavera é garantia de um espetáculo de cores, sabores e cheiros inesquecíveis, quase que só para você. Flores silvestres recobrem as colinas e as dunas das praias. O intenso e agradável perfume das giesteiras - pequenos arbustos de flores amarelas que crescem pra todo lado - invade o ar. Basta se aventurar pelas trilhas de fácil acesso à beira das estradas, que levam à praias paradisíacas, desertas nesta época do ano, para se sentir no paraíso.

Segunda maior ilha do Mediterrâneo (a primeira é a Sicília), a Sardenha é um território autônomo da República Italiana desde 1948. O italiano é o idioma oficial mas boa parte da população ainda fala sardo. Fundada pelos fenícios no século VIII a.C., a capital Cagliari fica no sul da ilha e é a maior cidade da Sardenha - com cerca de 160 mil habitantes. É uma cidade portuária, cosmopolita, dinâmica, onde o tradicional e o moderno coabitam em harmonia. E a poucos quilômetros do centro, seja em direção de Pula, a leste, ou de Villasimius, a oeste, o visitante vai descobrir uma costa selvagem, preservada, de grande beleza, com praias de areia branca, baías de rochas calcárias ou de granito, sempre banhadas pelo limpíssimo mar azul turquesa.

Longe da agitação e dos preços proibitivos da badalada Costa Esmeralda, no norte da ilha, ponto de encontro da jet-set internacional – é lá que Berlusconi promove suas festinhas – o sul da Sardenha é mais autêntico e abordável.
Quem chega de navio já está no centro de Cagliari (foto abaixo). E o aeroporto fica a apenas 6 quilômetros. Várias companhias low cost operam vôos a partir das principais cidades européias. De Marselha, na França, por exemplo, a viagem dura menos de uma hora.

Menos expansivo do que o ‘primo italiano’, o sardo cultiva uma certa discrição. Ele é o oposto do fanfarrão e mesmo se alguns copos de cannonau (o famoso vinho tinto insular) podem lhe tornar mais comunicativo, dá para sentir que, em qualquer circunstância, há um limite que ele não deseja ultrapassar. Ele é antes de tudo íntegro, olha o interlocutor direto nos olhos e prefere a franqueza ao exagero. Esta característica é ainda mais marcante nos habitantes do interior da ilha. Mas, fique tranqüilo, os sardos são hospitaleiros e extremamente solícitos com os turistas. Fala-se inglês nos principais pontos turísticos e os postos de informação dispõem de farta documentação em diversas línguas.

Programa local: comer ouriços frescos
Cagliari é uma agradável cidade mediterrânea à beira mar, dotada de infra-estrutura e serviços modernos, além de um rico patrimônio histórico e arqueológico. Um destino ideal para quem quer conciliar turismo cultural e balneário. Sem mesmo precisar sair de Cagliari, vá à praia do Poetto, a mais longa da ilha, com cerca de 9 quilômetros, entre salinas e o mar, o melhor lugar para se observar os hábitos dos habitantes locais. Um dos programas prediletos dos cagliaritanos nos finais de semana é passar por lá para comer ouriços frescos nas inúmeras barraquinhas espalhadas ao longo da avenida beira mar, nos chioschi (foto abaixo), como são conhecidos, acompanhado de vinho branco e pão. O aperitivo, degustado ali mesmo, de pé na calçada, é uma verdadeira instituição.

O restaurante Le Bontà de Lillicu, instalado na areia da praia do Poetto, é outro ponto de encontro tradicional. O estabelecimento é famoso pelos peixes e frutos do mar e as recepções para casamentos. Comi ali um delicioso spaguetti alla arselle (molusco bastante utilizado na gastronomia sarda) (foto abaixo), acompanhado de um tradicional Vermentino, o típico vinho branco sardo. A sala do restaurante é bem grande, mas sempre cheio; é imprescindível reservar. Na primavera, servem-se pratos de massa com molho de carne de ouriço.

Andar a pé é a melhor maneira de se conhecer Cagliari. Uma boa dica é partir da elegante Via Roma (foto abaixo). Um pouco acima do Castello, a Citadella dei Musei, instalada numa área habitada desde o século XIV, é o principal complexo cultural de Cagliari. O local já abrigou o arsenal real no século XIX e foi parcialmente destruído por bombardeiros em 1943. Um projeto arquitetônico da universidade de Cagliari transformou a área num centro polivalente de arte e cultura sarda, que abriga o museu arqueológico nacional, inaugurado em 1993, a Pinacoteca e dois outros museus menores: o de cera e anatomia e o de arte oriental. A porta de entrada, em estilo neoclássico de 1825, dá o tom à Citadella, que alia com elegância o antigo e o moderno.

Talhado na rocha na encosta de uma colina, o anfiteatro romano - do século II d.C.- , é outro ponto forte da visita. Com seus dez mil lugares, ele podia acolher toda a população da cidade e era palco para combates de gladiadores, além de local de espetáculos e de execuções públicas . Perto dali, o jardim botânico de Cagliari, realizado em meados do século XIX, é um dos mais conhecidos de toda a Itália, tanto pela beleza do sítio como pela riqueza vegetal. Seus 5 hectares abrigam espécies mediterrâneas, tropicais, cactos e plantas medicinais. O jardim também tem vestígios romanos, como um aqueduto e uma cisterna.

Da piazza della Constituzione, vale a pena subir as escadarias do Bastione di Saint Remy (foto abaixo), construído em 1902, para ver a cidade do alto e tomar um drinque no Caffè degli Spiritti, um dos preferidos dos cagliaritanos, com seus enormes sofás e poltronas brancas instaladas ao ar livre, no verão.

Outra visita interessante no centro é o Exmà (foto abaixo), um antigo abatedouro transformado em centro cultural em 1993. O edifício apresenta um belo contraste na sua fachada vermelho ocre ornada com esculturas de cabeças de boi em pedra branca. Além de exposições, cinemas e diversas manifestações de cultura urbana contemporânea , o centro tem um simpático bar no pátio interno, ideal para uma benvinda pausa.

Entre os vários edifícios religiosos de Cagliari, destacam-se a Catedral de Santa Maria, do século XIII, que foi reformada no século XVII. Seu interior é atualmente barroco e ela dispõe de um belíssimo piso e colunas em mármore de diferentes cores. Na Basílica San Saturnino (uma das igrejas mais antigas da ilha) construída entre os séculos V e VI , escavações arqueológicas continuam a ser realizadas ao nível da necrópole. Paredes envidraçadas foram instaladas para proteger o edifício da umidade, o que confere um ar moderno e harmonioso ao conjunto.

Numa de minhas andanças pelo centro de Cagliari, no bairro da Marina, em minha primeira viagem à ilha, almocei num restaurante chamado ‘Taverna Su Milese’, onde (bom sinal) não vi turistas e sim trabalhadores das redondezas. Acertei em cheio! Por apenas dez euros, o menu do dia oferecia uma entrada (antipasti terra, de carne, ou antipasti maré, de peixe ou frutos do mar ), um prato principal (primo: terra ou mare), mais ¼ de vinho (tinto ou branco) da casa, pão, água e café. Tudo fresco e muito gostoso, num ambiente despojado e serviço impecável. Nem acreditei! Voltei lá esse ano e tudo continua perfeito. Os outros menus, com dois até quatro entradas e pratos principais , além de sobremesas, variam de 15 a 30 euros, o que ainda é bem em conta. Endereço: Via Barcellona 32/34.
Na beira das estradas dos arredores de Cagliari é comum os agricultores venderem seus produtos recém colhidos. O must do momento são os aspargos selvagens, fininhos e verdes, excelentes para um suculento risoto. Vagens, cebolas, alcachofras, tomates, limões, tangerinas, entre outros produtos, também são oferecidos. A agricultura local, cultivada de modo artesanal e em pequenas parcelas, beneficia quase o ano todo de um clima ameno e ensolarado, o que faz com que as frutas e legumes da ilha sejam muito saborosos.

Nada como uma visita ao mercado San Benedetto (foto abaixo), no centro de Cagliari, para se ver de perto a quantidade e a qualidade dos produtos insulares ali vendidos diariamente. Se puder, vá num sábado, quando todos os estandes estão abertos e a animação toma conta do lugar. É um dos melhores programas para se sentir a ‘alma sarda’. No primeiro andar ficam os queijos, carnes, embutidos, frutas, legumes, pães e doces. No subsolo, os peixes e frutos do mar. Um verdadeiro festival de cores. Faça como os locais e aproveite para comer nos restaurantes das imediações do mercado, que utilizam seus produtos fresquinhos.

Burcei
Reserve um dia para uma visita a cidadezinha de Burcei, entre vinhedos e cerejeiras, a apenas 40 quilômetros de Cagliari, na região montanhosa do parque florestal dos Sette Fratelli. Fundada no século XVII, ela nos dá a impressão de uma viagem no tempo : senhoras idosas ainda se vestem tradicionalmente de preto da cabeça aos pés. E nos vinhedos, implantados a mais de mil metros de altitude, nos flancos das colinas, terreno impraticável para tratores, são carros de boi que dão conta do serviço. Nem acreditei quando os vi surgir numa estradinha estreita nos arredores da cidade. Uvas da variedade canonnau (ou grenache), que produzem vinhos tintos, são cultivadas ali com métodos ancestrais.

Uma das particularidades dos vinhos produzidos na Sardenha é o fato de que boa parte dos vinhedos sobreviveu a terrível praga do filoxera (parasita originário da América), que praticamente dizimou os vinhedos europeus entre o final do século XIX e início do século XX. Por isso, muitas das parreiras insulares são de pé franco, ou seja, não precisaram ser enxertadas com plantas vindas da América, a solução encontrada para salvar os vinhedos europeus e que perdura até hoje. Os sardos são bastante orgulhoses de suas parreiras ‘puro sangue’.

De volta a Cagliari, vale a pena tomar a direção de Pula, a leste , para visitar a área arqueológica de Nora, à beira mar. Nora foi fundada pelos fenícios no decorrer do século VII a.C. Localizada num promontório do Cabo de Pula, ela beneficia de uma excelente localização geográfica : os barcos podiam acostar independentemente das condição de vento. A praia de Chia (foto abaixo), ao lado, é outro espetáculo.

Villassimius
A oeste de Cagliari, em direção de Villassimius, o visitante vai passar por uma estrada sinuosa de serra, com belíssimas praias em contrabaixo (foto abaixo) e pequenos rebanhos de ovelhas e cabras que pastam entre as flores silvestres das colinas. O célebre queijo pecorino (de ovelha) é orgulho regional e ocupa um lugar de destaque entre os inúmeros queijos italianos. A tradição agro-pastoral ainda é uma das principais atividades econômicas da ilha, além do turismo.

Algumas especialidades da culinária sarda
O mundo pastoral dá origem a maioria das referências culinárias sardas. A base são as carnes, queijos e plantas aromáticas, como a murta, o tomilho e a aroeira. O queijo pecorino (foto abaixo), que já serviu de moeda no centro da ilha, reina soberano e entra na confecção de várias pratos, como os tradicionais culungiones (ravioles redondos em forma de nozes confeccionados a mão com recheio a base de pecorino, hortelã e batata). Ele também é consumido cru, em lascas sobre saladas ou simplesmente ralado sobre massas.

Os pães sardos lembram o pão árabe, sem miolo, fininhos, em forma de crepes. Uma receita tipicamente sarda é a do pane frattau, realizada a base de pane carassau (também conhecido como « papel », devido a sua extrema finura). Ele é primeiro molhado com um caldo de cabra para torná-lo mais macio e, em seguida, guarnecido com molho de tomate, pecorino e sal. Cada um tem sua própria receita : tão variadas quanto as receitas de pizzas.
Os presuntos crus são excelentes, assim como as linguiças, salaminhos e embutidos em geral. Acompanhados de pão e queijos são uma ótima opção para um piquenique, um hábito bastante comum entre os insulados.
Entre os pratos festivos, destaca-se o porceddu, o leitãozinho assado na brasa, assim como cordeiros e cabritos, geralmente preparados ao ar livre com fogo de lenha.

Grande produtora de cereais, a Sardenha tem suas massas típicas, como a fregola, cuja forma lembra a de grãos de arroz. Essa massa de trigo duro é secada no forno, o que explica seu retrogosto de nozes. Reputada por seu poder de absorção, ela ‘bebe’ literalmente os molhos e se transforma em pequenas bilhas super saborosas. Também conhecida como ‘cuscus sardo’ (em referência à sêmola do prato marroquino), acompanha idealmente conchas e crustáceos.
Entre os produtos do mar, destacam-se o atum e a bottarga (ovas de tainha secas e salgadas). Apelidada de ‘caviar do Mediterrâneo, a bottarga é servida ao natural, em finas lamelas regadas de azeite, ou em condimento, ralada sobre um prato de massa.