Por Ana Virginia Delrieu (texto e fotos)
Se você procura uma cidade provençal que alia descontração e refinamento, tradição e modernismo, boa oferta de hotéis, estações termais, restaurantes, museus, vida cultural intensa, clima ameno, além de natureza exuberante nas redondezas, não hesite: conheça a charmosa e requintada Aix-en-Provence, uma das cidades mais bonitas e mais visitadas do sul da França.

Seu mais ilustre cidadão, o pintor Paul Cézanne, que ali nasceu em 1839, imortalizou a região em suas telas. A majestosa montanha Sainte Victoire, para onde ele ia a pé, em longas caminhadas, carregando o material de pintura numa mochila, foi retratada de inúmeros ângulos e em diferentes horas do dia, para melhor representar as variações cromáticas do céu provençal. Já aposentado e de volta à cidade natal, ele instalou seu ultimo ateliê numa pequena propriedade rural na colina de Lauves, entre campos de oliveiras e o canal do Verdon (cenário da série de quadros “Les Baigneuses”, (as banhistas). Sempre pintando “sur le motif”, Cézanne foi surpreendido por uma violenta tempestade durante um desses passeios e sofreu uma congestão, falecendo dias depois, em 15 de outubro de 1906, aos 67 anos.

Em Aix (como é chamada pelos habitantes), a presença de Cézanne é onipresente. Para percorrer os bairros onde viveu o pintor, basta olhar para o chão das calçadas e seguir as plaquinhas metálicas gravadas com seu nome, que indicam o ‘circuito Cézanne’ (um mapa detalhado é disponível gratuitamente no escritório de turismo local). Uma estátua do artista, com sua célebre barba e chapéu, além da inseparável mochila repleta de tintas, pincéis e rolos de telas, acolhe os visitantes e os convida a descobrir as belezas locais. No Atelier des Lauves, nas imediações da cidade, o visitante ainda pode ver os objetos que serviram de modelo às naturezas mortas do artista, assim como seu material de pintura.

A belíssima avenida Cours Mirabeu (de 1646) é a principal artéria do centro histórico. Além das suntuosas residências com fachadas ricamente decoradas, ela tem três inusitadas fontes implantadas no meio da pista. Trata-se do ponto de partida ideal para se visitar a cidade. Caminhe sem pressa, com paradas obrigatórias em seus elegantes cafés, como o célebre Les Deux Garçons (foto abaixo). Carregado de história, sempre foi um endereço bastante apreciado pelos habitantes, artistas, políticos e escritores, que frequentavam a Provence. O prédio, construído no século XVII, é um monumento histórico, e o café, que funciona ali desde 1792, era o ponto de encontro diário dos jovens Cézanne e Emile Zola (então camaradas de classe do liceu Mignet), na hora do aperitivo . Além dos dois amigos (Zola nasceu em Paris, mas sua família se instalou em Aix quando ele tinha apenas três anos), o Livre d’Or do estabelecimento é recheado de assinaturas de celebridades: Pablo Picasso, Edit Piaf, Jean Cocteau, Alan Delon, Jean-Paul Belmondo, Charles Trenet e Winston Churchill, entre outros. Jean Giono escreveu: “o café Les Deux Garçons tem uma história paralela à história da Provence”.

A programação cultural de Aix-en-Provence é intensa e variada durante todo o ano, mas um dos eventos mais prestigiosos acontece no verão: o Festival International d’Art Lyrique, que este ano ocorre de 5 a 25 de julho , com 22 concertos e recitais, entre eles os da Orquestra Sinfônica de Londres, em diferentes salas e jardins do antigo arcebispado, L’Ancien Archevêché (séculos XVII e XVIII).
Sem ter que sair do centro da cidade, o visitante também pode aproveitar a estadia em Aix para relaxar no maior estabelecimento de curas termais da Provence: Les Thermes Sextius, instalado num palácio do século XVIII, com mais de 3 mil metros quadrados de espaços dedicados à boa forma e às terapias com águas medicinais quentes. A apenas cinco minutos a pé da Cours Mirabeau, o Spa Sextius, aberto o ano todo, dispõe de saunas, hammans, salas de ginástica, piscinas aquecidas, além de curas específicas, como as de equilíbrio energético, leveza das pernas, bem estar da coluna, pré e pós parto, anti-celulite, entre outras.
“Aix”, deriva do latim “aquae”, e desde a fundação da cidade, em 122 a.C., o general romano Caïus Sextius, utilizou as nascentes de águas quentes e frias presentes na região para construir um estabelecimento termal. A água (escassa em outras cidades provençais) sempre ocupou um lugar importante na história de Aix-en-Provence. Graças a construção da barragem Zola, aos pés da montanha Sainte Victoire, no século XIX, uma água pura, vinda do rio Verdun e conduzida através do Canal da Provence, alimenta toda a cidade em profusão. Diversas fontes, algumas com águas termais, se espalham pelas praças e ruas. São 43 fontes públicas de água potável, sem contar as localizadas nos pátios e jardins internos dos imóveis particulares.
Não se acanhe, faça como os locais e sirva-se à vontade. Mas, atenção, antes de beber verifique se não se trata de água quente. O chafariz mais conhecido é o monumental Rotonde (um bom ponto de referência para se localizar na cidade). Construído em 1860, ele simboliza a entrada de Aix nos tempos modernos e se encontra no centro de um giratório que dá acesso às avenidas em forma de estrela. Suas três estátuas em mármore de Carrara representando a justiça, as belas artes e a agricultura.

Entre as fontes mais antigas e pitorescas, destacam-se a dos Quatre Dauphins, na Rue du Quatre Septembre (foto aciima, à esquerda), talhada em rocha da montanha Sainte Victoire, e a fonte da Praça Albertas (foto acima, à direita), localizada no centro de um cenário arquitetural requintado, com fachadas barrocas do século XVIII.

As feiras livres são outra atração na cidade. Três vezes por semana, barracas multicoloridas vendem os produtos típicos da ensolarada Provence: as ervas, azeites, amêndoas, vinhos, frutas, legumes e queijos de cabra, entre outras iguarias. Uma das mais concorridas se situa na praça em frente ao Hôtel de Ville (Prefeitura) (foto acima), rodeada de charmosos cafés (foto abaixo). Ao lado do Hôtel de Ville, belíssimo edifício de arquitetura clássica do século XVII, com sua fachada à l’italienne, ergue-se uma torre que data de 1510 (foto abaixo).

Na hora que a fome apertar, dirija-se à animada esplanada Forum des Cardeurs, onde há várias opções de restaurantes. Ao avistar ali, no terraço de um café, um grupo de turistas jogando cartas num dia ensolarado de maio, não pude deixar de pensar no famoso quadro de Cézanne: Les Joueurs de Cartes.
Os calissons d’Aix-en-Provence
Os doces, uma especialidade local desde o século XV, têm um formato característico de losango, que lembram uma amêndoa, e são confeccionados com uma massa feita de açúcar ou mel, amêndoas moídas e melão confeitado (outras frutas confeitadas, como as laranjas, também podem variar a receita). A massa repousa sobre uma finíssima folha de hóstia e é recoberta de uma camada lisa e crocante de glacê real (à base de açúcar e clara de ovo). A preparação (e o cozimento) são longos e os ingredientes custosos, o que explica o preço relativamente elevado da doçura.

O calisson d’Aix-en-Provence é famoso em toda a França, além de exportado para a Europa e o mundo. Fábricas e confeitarias artesanais seguem escrupulosamente a velha receita. Uma primeira alusão ao calisson remonta ao século XII. Um texto em latim medieval utiliza o termo calisone para designar um doce de amêndoas e farinha próximo da marzipã, ou da maçapão atuais. A iguaria teria sido trazida da Itália para Aix-en-Provence em meados do século XV. Em 1454, durante o casamento do Rei René (d’Anjou) com a austera e sisuda Jeanne de Laval, o chefe confeitero real serviu a iguaria à futura rainha que, para surpresa geral, teria esboçado um sorriso ao saborear um desses câlins (carinho, em francês). Um dos convivas que presenciou a cena, teria dito: «Di calin soun» (Ce sont des calins). E o nome emplacou. E mesmo se é pouco provável que a expressão seja autêntica, o fato é que a corte do Roi René favoreceu enormemente as trocas comerciais entre os produtos da Provence e da Itália e que os calissons modernos chegaram à cidade durante seu reinado.
Uma outra teoria para a origem do nome da iguaria, conta que para prevenir Aix-en-Provence da epidemia de peste de 1630, o padre Martelly consagrou a cidade à Nossa Senhora e fez-lhe a promessa de homenageá-la todos os anos. No final da missa, doces abençoados foram distribuídos enquanto os fiéis cantavam em latim, « venite ad calice ». O « venha ao cálice » foi se distrorcendo aos poucos até se transformar em « venha aos calissons ». Ainda hoje, na igreja Saint-Jean-de Malte, no primeiro domingo de setembro, a promessa feita à Maria é renovada e uma missa é celebrada para a benção dos calissons, seguida de festa popular.
No final da Cours Mirabeu, uma fonte com a estátua « do bom » Le Bon Roi René, como ficou conhecido entre a população, por ter incentivado a modernização da agricultura e relançado a economia local, bastante afetada pela guerra de Cem Anos, saúda os visitantes.
Quando a tradição faz a diferença
No número 12 da Cours Mirabeau situa-se uma das mais tradicionais fábricas de Calissons d’Aix: a Maison Bechard (foto abaixo), que pertence a mesma família desde 1900. Mas não adianta procurar na internet. A loja, cujas funcionárias servem os clientes com seus impecáveis uniformes (avental preto e camisa branca) não tem site, nem e-mail, nem folheto promocional. E nem precisa. Ela ainda funciona à moda antiga e vive cheia graças à tradição e qualidade de seus produtos.

Em toda a cidade, oito fabricantes – os “calissonniers”, com são chamados – produzem o pequeno losango açucarado . O consumo de amêndoas para a confecção de confeitos, doces e biscoitos na cidade varia entre 100 e 150 toneladas por ano.
Também vale a pena visitar a reputada confeitaria Riederer (67, Cours Mirabeau), uma referência na região, cujo maître chocolatier foi eleito em 1989 Meilleur Ouvrier de France, da categoria pâtissier confisseur (a mais alta condecoração entre os confeiteiros). No interior da sofisticada loja, uma placa relembra o prestigioso prêmio. Além dos calissons, seus chocolates (garantidos 100% à base de cacau), frutas confeitadas, bolos e tortas (verdadeiras esculturas) são de cair o queixo.

Como chegar
É fácil chegar à Aix-en-Provence, seja de avião, de trem ou de carro.
De avião: o aeroporto internacional Marseille-Provence (29 companhias regulares e um terminal low cost – mp2 – com vôos para 35 países), fica a 25 Km do centro de Aix. Um serviço de navettes (ônibus especiais) ligam o aeroporto à estação de ônibus (gare routière) , no centro de Aix: 7,80 €, com saídas a cada meia hora.
De trem: Pelo trem de alta velocidade - TGV – de Aix-en-Provence fica a Paris fica a 2h57m de viagem, Lyon a 1h20m e o aeroporto Roissy Charles de Gaulle (Paris) a 3h55m.
De carro: Paris (780 Km), Lyon (300 Km) : auto-estradas A7 - A46 – A8. Nice (175 Km): A8. Montpellier (150 Km), Nimes (120 Km), Arles (8O Km): A54 - A9.
Sites
Escritório de turismo, com informações completas em diversos idiomas sobre hospedagem, visitas e programação cultural: www.aixenprovencetourism.com
Festival internacional de arte lírica: www.festival-aix.com
Confeitaria Riederer: www.riederer.fr
Le Deux Garçons: www.les2garçons.fr