ANA MARIA TORRES SCHALL GAZZOLA Brasileiríssima , mineira de Alvinópolis, descendente de alemão, português, inglês e casada com cidadão italiano (mistura que dá... Ver perfil completo
Indo viajar à noite para o exterior, meu marido resolveu degustar de tarde um vinho nacional, último exemplar da safra de 1999 na adega, dizendo que temia pela sua idade, já que 9 anos de guarda para vinhos nacionais é um risco. Confesso que não gostei da idéia, pois gostaria de guardar para sempre esta garrafa, como uma lembrança muito cara. Mas como não somos colecionadores, cedi. Abri a garrafa um pouco desconfiada e na expectativa do que encontrar, e com o cuidado que se dispensa a um raro, querido e antigo objeto.
Mas para nosso deleite, estava excelente. No ponto alto de sua trajetória como substância viva que é o vinho. Cor granada escura com reflexos também granada, muito límpido, cor de vinho maduro, porém saudável. Aromas deliciosos e complexos, de boa intensidade e persistência. Lembrando frutas vermelhas em geléias (amoras, framboesas e groselhas), leve chocolate amargo. Notava-se algo como ervas finas, ameixas secas, baunilha e madeira na medida certa. Na boca, não apresentava a acidez acentuada comum nos vinhos nacionais, estava harmoniosamente equilibrado entre seus taninos (macios), acidez e maciez. De médio corpo, enchia a boca e descia redondo, com seus civilizados 12,5% de álcool, deixando um longo final agradável de frutas em compota com especiarias. Parecia um Bordeaux da margem direita (St. Emilion, Pomerol), de alto nível, após vários anos de guarda.
Não é à toa que este vinho foi considerado pelo meu amigo Julio Anselmo, de Belo Horizonte, um marco na vitivinicultura nacional. Quando o provou pela primeira vez, em 2000, Julinho, grande entendedor e provador de vinhos (um dos fundadores da Academia do Vinho e do primeiro Guia de Vinhos Brasileiros, editado em 2001, do qual participei), disse ter descoberto numa pequena e ainda desconhecida vinícola, um grande vinho, ainda muito novo, mas com grande potencial. Realmente ele tinha razão. O vinho, Pizzato Merlot 1999, da Vinícola Pizzato, do Vale dos Vinhedos de Bento Gonçalves (RS) (www.pizzzato.net). Pena ele não estar junto para prová-lo agora, 8 anos depois.
Já o havíamos provado antes várias vezes e gostávamos sempre, mas naquele momento aquela garrafa nos encantou. Lembramos emocionados e homenageamos com um brinde dois amigos que nos proporcionaram estar degustando este vinho. Amigos que já partiram em viagem para o outro lado e não voltam mais. O enólogo responsável pela elaboração do vinho, Ivo Pizzato, falecido em 2007, e o médico e enófilo idealizador do evento de vinhos “Vamos à Montanha”, Edilson Krüger, falecido em 2006, quando pilotava seu avião Cessna, tentando cruzar os Andes da Argentina para o Chile, numa viagem enogastronômica. Penso que os dois ficariam felizes em saber sobre a excelente evolução do vinho e do nosso encantamento.
A garrafa foi arrematada, junto com outras tantas, da Adega do Confrade Edilson, em leilão no “Vamos à Montanha” de 2006, realizado em Tiradentes (MG), em sua homenagem (www.academiadovinho.com.br/vamos/histórico). Aliás, gostaria de frisar que mesmo para um vinho de guarda chegar neste ponto tão bem, foi necessário um cuidado especial na sua conservação, muito bem guardado desde seu berço até quando o adquirimos, quando continuamos a cuidar bem dele. Somente um amante e conhecedor de vinhos sabe respeitar e dar importância a tal tarefa.
E por lembrar este leilão, não posso deixar de mencionar aqui outra surpresa agradável e inesquecível que arrematamos naquele dia, também da Adega do Comandante Edilson. Uma garrafa Matusalém (com 6 litros), do vinho top da Vinícola Miolo, o “Lote 43”, também da safra de 1999.

As grandes garrafas fora de serie do tamanho normal (750 ml) foram feitas para momentos especiais, festas, comemorações e grandes encontros. Por isso resolvemos abri-la no meu aniversário, junto com alguns amigos chegados. Pensamos que iria até sobrar, pois uma garrafa com aquela quantidade... Mas para nossa grata surpresa o vinho acabou antes da reunião acabar. E nenhum outro que abrimos depois alcançou o nível de equilíbrio e maturidade perfeitos que sentíamos no Lote 43.
De cor ainda bastante viva, rubi escuro quase brilhante, nariz com notas de frutas vermelhas e pretas bem maduras que se mesclavam com as especiarias numa sensualidade instigante, além das notas de baunilha, alcaçuz, vegetais secos, mas algo ainda fresco, leves notas de “sus-bois” (folhas úmidas do chão das florestas fechadas) e pelica. Na boca os taninos maduros, macios, muito bem integrados com a maciez aveludada e acidez no ponto exato emolduravam o longo final frutado e especiado. Uma degustação inesquecível com um vinho nacional também inesquecível tornou aquele dia especial (06/06/08) uma comemoração memorável.
É importante registrar que o envelhecimento do vinho é mais lento quando acondicionado em garrafas maiores. Tendo-se por base uma garrafa normal, de 750 ml, e, sendo um vinho de guarda, precisa-se de pelo menos 2 anos a mais para abrir, por exemplo, uma garrafa Magnum (1,5 litros), do tamanho daquela que os pilotos vencedores na Fórmula 1 chacoalham felizes no pódio.
Infelizmente, a safra 99 não se comercializa mais, está esgotada. Aliás, recebi um email da Vinícola Miolo (www.miolo.com.br), Projeto Confrarias, informando que as últimas garrafas da safra 2004 (que foi excelente), também já estão se esgotando. Termino por aqui para tentar encomendar pelo menos uma garrafa Matusalém do Lote 43 safra 2004, se ainda der tempo, e daqui a alguns anos, quem sabe, quando abrir esta garrafa acender a memória lembrando as pessoas, vinhos e fatos que valem à pena.