ANA MARIA TORRES SCHALL GAZZOLA Brasileiríssima , mineira de Alvinópolis, descendente de alemão, português, inglês e casada com cidadão italiano (mistura que dá... Ver perfil completo
Neste momento estamos passando por uma crise financeira mundial (ou é o ventilador americano que tá espalhando?), que derruba bolsas e faz o dólar disparar. Aqui, pelo que as autoridades estão dizendo, está tudo sob controle e não seremos tão afetados como em outros grandes países, mas nós, amantes de vinho, já estamos diretamente atingidos. Com a disparada do dólar, os vinhos importados e comprados nesta moeda são a resposta da crise mundial entrando pelos nossos bolsos, bolsas e taças.
Como em todo caos, alguns ganham e muitos perdem. E em época de crises temos que ser criativos para não só sobreviver como também tirar proveito de pequenas e poucas possibilidades. Agora, vejo uma oportunidade para que o mundo do vinho (que é líquido) nacional não se evapore no ar ou fique envelhecendo nas caves e adegas e não perca o bonde da historia para se firmar nesta viagem, nacionalmente.
Acho que esta é uma boa hora para diminuir uma crise interna. A crise de (des)confiança nos vinhos nacionais. De um lado paira uma crise de confiança no mundo financeiro que retirou a liquidez do mercado (internacional). Do outro, temos no mercado interno, um líqüido para ser comercializado sem deixar que a liquidez do mercado financeiro internacional interfira.
Quero dizer o seguinte: Existe uma faixa de consumidores no mercado que, sendo amante de vinho, e procurando sempre qualidade, pensa que só a encontra em vinhos importados. Nunca provando os produtos vinícolas nacionais, atuais. Este público que só bebe/compra vinho estrangeiro e em muitos casos compra em dólar, pode estar desconfiado com esta dança financeira e paralisar estas compras eventualmente ou temporariamente.
Esta brecha na comercialização dos vinhos importados pode e deve ser ocupada pelos vinhos nacionais, para que este consumidor pelo menos prove nosso produto, que já é de muito boa qualidade e não é vendido/comprado com base no dólar. Uma prova disso é que importadoras, conceituadas e de alto nível, para uma faixa elitizada, que só tinham, em seus catálogos, vinhos de outras nacionalidades, hoje já fazem constar neles produtos de vinícolas brasileiras.
Penso que nossas empresas vinícolas deveriam ser mais agressivas e atuantes em suas campanhas de marketing e se fazer chegar perto deste público, nesta época. Mas se não agir rápido, perderão o bonde da crise. Talvez através de caixas mistas de bons produtos, com alguma nova estratégia ou uma tentadora promoção, mesmo diminuindo um pouco a margem de lucro. Quem sabe assim possa consolidar a venda para esta parcela de degustadores ainda não alcançada.
Exemplificando o que disse, foram as provas cegas que promovi com alguns grupos de enófilos já bem rodados nesta estrada da degustação! Sempre degustamos em cada encontro de 3 a 4 vinhos, fazendo analises descritivas sem conhecer seus rótulos. Em algumas dessas degustações inseri, entre vinhos italianos, franceses, chilenos, portugueses, espanhóis, etc., um nacional. E os resultados surpreenderam aqueles que ainda tinham esta desconfiança. Este é um bom momento para se aproximar dos nossos produtos, sem preconceitos. Refiro-me principalmente aos tintos.
“Vinhos do Sul – Sul de Onde?” foi o tema de um dos encontros. Junto com o Château
Montus Cuvée Prestige 2001 de Alain Brumont , feito da uva Tannat, vindo de Madiran, que fica no sudoeste da França e é muito conceituado internacionalmente, tendo recebido 93 pontos da revista americana Wine Spectator e com o Contessa Entelina “Mille e uma Notte” DOC 2000, elaborado com as uvas Nero D’Avola e Nerello, da vinícola Donnafugata, da Sicilia, sul da Itália, também um ícone daquela região, inseri dois brasileiros.
Um deles o Villa Francioni Tinto 2004, de São Joaquim em Santa Catarina. Elaborado das uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Malbec, passa no seu amadurecimento 12 meses em barrica nova de carvalho francês Allier (nome da floresta localizada no centro da França de onde a madeira vem). Um vinho intenso, de cor vermelha rubi escura, de grande amplitude aromática, lembrando violetas, chocolate, ameixas, frutas vermelhas de bosque, especiarias, leve frescor da menta, e notas de tostado. Na boca se apresenta com equilíbrio excelente entre acidez, maciez que chega a redondo e taninos presentes maduros e macios, enche a boca com seu corpo potente, de longo final frutado. Este vinho foi pontuado com 92 pontos de média num grupo de 6 degustadores experientes. Os estrangeiros citados acima tiveram médias de 86 e 91,5 pontos respectivamente.
Outro vinho foi o Desejo 2004 da Vinícola Salton, localizada no distrito de Tuiuti em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul. Vinho que foi eleito por um grupo de jurados especializados o melhor nacional na Expovinis 2007 – maior evento de vinhos do Brasil, atualmente. De cor muito boa, vermelho rubi escuro, com aromas ainda jovens de frutas vermelhas maduras, caramelo, chocolate, baunilha, violeta, sutilmente apresentando notas de menta e tostado. Excelente na boca, o exame gustativo se apresentou de alto nível, com grande equilíbrio entre sua acidez, maciez e taninos, com álcool muito equilibrado, 13%, qualidade bastante fino, muito intenso com longa persistência de seus aromas e sabores na boca. Este vinho obteve notas entre 91 e 96 dos seis degustadores, alcançando média de 92.2 pontos. Grande vinho, pronto para ser degustado com prazer agora e por mais uns 3 anos, no mínimo. Em outra degustação, inclui este vinho junto com o Montepaone IGT 2000, Castelo de Montepó/Biondi Santi da Toscana/Itália e o famoso Don Melchior 2001 da Concha Y Toro chilena. As pontuações foram 89, 89,2 e 92,5 respectivamente.
Outro vinho que inseri numa degustação livre junto com o Domus Maximus 2004 do Château Massamier La MIgnarde – AOC Minervois La Liviniére, do Languedoc, sudoeste da França, que obteve 91 pontos da publicação especializada Wine Spectator, foi o Merlot Terroir 2004 da Vinícola Miolo, elaborado no Vale dos Vinhedos – Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. Este foi eleito o melhor vinho brasileiro de 2007, pela revista GULA, edição 175. Elaborado com assessoria de Michel Rolland (um dos enólogos mais famosos da frança atualmente), estagia em carvalho francês por 1 ano e só é elaborado em safras excepcionais, em 2006 e 2007 não foi feito. De cor rubi muito escura, aromas de grande intensidade e diversidade, mostrando desde frutas vermelhas e negras (cassis, amora, ameixas,...), passando pelas violetas, defumados, especiarias, tabaco, até os aromas de caça, pele de salame. Na boca se apresentou levemente fresco em sua acidez, com taninos bem presentes, precisando ainda de tempo para se tornarem equilibrados (degustado no inicio de 2007, acredito que agora esteja mais pronto), mais do que bom corpo com álcool e maciez na medida. Um ótimo vinho para acompanhar uma carne suculenta, por exemplo um cabrito, como o que comi (excelente) neste último final de semana no restaurante Oliveiras da Serra, em Araras, pena que não tinha este vinho para acompanhar.
Como disse, temos vinhos muito bons agora, alguns novatos no mercado, mas prontos para serem descobertos na busca de uma saída para a crise, sem deixar a boca seca.