ANA MARIA TORRES SCHALL GAZZOLA Brasileiríssima , mineira de Alvinópolis, descendente de alemão, português, inglês e casada com cidadão italiano (mistura que dá... Ver perfil completo
Vou escrever minhas impressões sobre vinhos, não só sobre as “viagens” que cada garrafa de vinho me proporciona através dos seus aromas e sabores, mas também nas viagens que faço para me aprofundar nos sabores dos “terroirs” de cada vinho.
Em recente viagem à África do Sul, em janeiro, já no avião comecei a saborear os vinhos daquela terra com a expectativa de encontrar aquele “sabor”, aquele algo mais da cor local. Porém, vinhos de avião, classe turístico-econômica, não são lá essas coisas, nem anotei os nomes. Mas, lá na África, me surpreendi com alguns vinhos da uva Pinotage (casta originaria da África do Sul, obtida do cruzamento da Pinot Noir e Cinsaut), verdadeiras delicias.

Já conhecia os vinhos deste país há mais de 15 anos, quando meu marido me trazia de suas viagens a negócios por lá, alguns bons exemplares. O primeiro pinotage que degustei foi o da Kanonkop (hoje importado pela Mistral), de Stellenboch, uma das melhores regiões de vinho do país; uma curiosidade, e naquela época achei interessante, diferente, mas nada de extraordinário.
Ainda hoje degusto bons vinhos de bons produtores deste país, que produz vinhos desde 1685, em meus grupos de degustação, mas limitados aos poucos produtores que aqui chegam trazidos por várias importadoras. Confesso que, de todos que encontro por aqui, nenhum pinotage me fez a cabeça. Conheço bons shiraz, cabernets sauvignons e sauvignons blancs desta terra.
Mas nesta viagem provei alguns pinotages, de vinícolas que ainda não desembarcaram aqui, que me surpreenderam. Logo quando iniciei minha visita à primeira vinícola, me foi indicado que provasse o pinotage; como fiz um ar de desinteresse por tal uva, passaram a discorrer sobre seus predicados, pareceres de especialistas e prêmios recebidos. Tudo bem, pensei, vamos lá! Mas pensando que seria perda de tempo, e eu não dispunha de muito. Qual não foi minha surpresa quando senti os aromas e principalmente quando o primeiro gole me encheu a boca. Fiquei admirada! Que delícia de vinho! Será que não é corte? Pensei. Era varietal puro de pinotage, da Groot Constantia, primeira empresa a produzir vinhos na África do Sul, que fica na região de Constantia, nos arredores da Cidade do Cabo (Capetown).
Cor rubi escuro impenetrável. Aromas a café, frutas vermelhas como morangos e cerejas, além de baunilha, tabaco, tostado. Na boca, muito bom equilíbrio entre acidez correta e maciez redonda com taninos de ótima qualidade, maduros e ainda bem presentes no palato. Encheu a boca com intensidade e teve longo final aromático no retrogosto, com presença das frutas vermelhas e baunilha. O teor de álcool era de 14%, alto para um pinotage, mas não aparente, deu a maciez necessária ao vinho sem ser agressivo. Custo/beneficio muito bom, na vinícola custa $ 88.00 Rands (moeda africana).
Logo a seguir, em outra vinícola, com vinhos que infelizmente não chegam ao Brasil, a Seidelberg, na sub-região de Paarl, provei mais dois exemplares da uva pinotage. Novamente tive a mesma surpresa (ou constatei a mesma coisa), e até ao perceber que mesmo o vinho de linha mais baixa estava num nível de qualidade que para mim é raro nesta uva.
Tonalidade rubi escuro, vivo, linda cor. Aroma concentrado de frutas vermelhas (cerejas, mirtille, morangos), canela, chocolate e um vegetal fresco agradável. Boa intensidade e persistência aromática. Na boca ótimo equilíbrio, textura e sabores. Taninos de boa estrutura totalmente integrados com a acidez e maciez dos sabores das frutas maduras e especiarias permaneciam longamente no paladar. Vinho macio, totalmente pronto para beber, mesmo ainda sendo jovem. Um vinho que deve ser degustado nos próximos dois anos. Com 14,3% de álcool. Passou 4 meses em barricas de carvalho sendo 90% em carvalho francês e 10% em barricas de carvalho americano, o que lhe deu o toque abaunilhado e de especiarias no retrogosto. Ótimo custo pela qualidade apresentada, em Rands, custa 59.00 na vinícola.
Cor rubi, bem escuro porém vivo, com reflexos rubi brilhantes, linda cor. Deliciosos aromas saltaram ao nariz, que se apresentou com ótima intensidade e persistência aromática de cerejas, framboesas, mirtilles maduras e frescas, canela, chocolate, baunilha, alcaçuz, dentre as que mais se sobressaíram. A medida que se aerava na taça, mais e mais aromas se desprendiam. Ao provar, mostrou uma ótima boca com uma densa estrutura tânica, mas taninos maduros e bem integrados aos outros caracteres do vinho. Com seus 15% de álcool, esquentou levemente a boca, que foi equilibrada com a acidez e os taninos macios. Ótima intensidade , enchendo a boca, e longa persistência no palato, com retrogosto de fruta madura como cassis, além do chocolate preto, cravo, baunilha, entre outros. Vinho complexo termina muito bem, deixando a boca com gosto de quero mais.
Outro ótimo custo/qualidade: $ 98.00Rands na vinícola. Aliás, esta vinícola tem vinhos de muito boa qualidade com preços muito em conta. Seria uma ótima aquisição para qualquer importador.
Mas confesso que, nos restaurantes, não me atrevi a pedir nenhum vinho daquela uva, sempre preferia um cabernet sauvignon ou shiraz, uvas internacionalmente mais adaptáveis a diversos terroirs.
Será algum tipo de preconceito meu por esta uva, como eles ainda guardam pelos “não brancos” da época do apartheid. Tanto que na primeira refeição em solo africano, num jantar em um bom restaurante indiano, pedi um Shiraz (pensando nos condimentos e especiarias). Realmente foi a escolha certa, “casou” perfeitamente com a comida, devido aos temperos que aquela terra nos legou. Que delícia! Uma carne africana à moda indiana, com direito a todas as especiarias possíveis (cravo, canela, gengibre, pimentas, etc.). O vinho com uma textura que agüentou bem o peso da comida, com seus aromas e sabores que se assemelhavam aos condimentos usados. Taninos já integrados porem presentes, dando corpo e estrutura, com longo final de boca, retrogosto de frutas e especiarias se mesclavam. Mas de tão entusiasmada que fiquei (era aquele paladar que estava esperando desde o avião), esqueci o guardanapo em que anotei o nome do vinho na mesa do restaurante... Só sei que tinha no rótulo preto um desenho em dourado de um cachorro sentado segurando na boca um chapéu. Shiraz de 2004 com 14,5% de álcool. Quem souber ou estiver em viagem por lá por favor, me envie o nome do vinho e da vinícola, pois este é um que merece ser anotado no meu caderninho de vinhos especiais que já provei. Maravilhoso, nossa estadia começou bem.