Amigos, vinhos, comida e verão no Rio de Janeiro

Recebi alguns amigos para jantar, em dia de verão no Rio de 50ºC. Seria bem complicado se não fosse o ar condicionado, pois nem na varanda estava agradável de se estar. Ainda mais depois de alguns vinhos, a temperatura corporal sobe, além do ambiente esquentar com várias pessoas reunidas. Mas nem o ar condicionado estava dando vazão.

Mas não é sobre o tempo que quero falar, aliás, estou achando que este é o Rio do verão que conhecia e vivia há alguns (muitos) anos. Vamos viver cada estação, “comme il faut”.

E foi pela alta temperatura que escolhi o menu do jantar e os vinhos, além de alguns outros aspectos, como a lembrança recente da quase tragédia em Machu Picchu e pela viagem de um casal de amigos que viria jantar conosco, ao Peru no ano passado.

Nesta viagem eles conheceram e se apaixonaram pelo ceviche. Este é um prato típico tanto do Peru quanto do Equador, e se trata de peixe ou algum fruto do mar, marinado em limão, temperos e alguns legumes, onde a carne usada acaba sendo cozida pela acidez do limão.

Resolvi, então, servir de entrada um ceviche de linguado, após uns petiscos, como morangos, azeitonas, alguns frios e queijo de cabra Cablanca com o excelente espumante Angheben (nacional, Vinci Vinhos), Modéstia às favas, ficou delicioso e também combinou muito bem com o mesmo espumante, ficando perfeitamente harmônica a combinação do ceviche de linguado com os temperos que usei. Querem a receita? Então anotem.

Ceviche

Para um quilo de linguado, 15 limões e 6 laranjas peras espremidos. Três cebolas roxas, 5 pimentinhas malaguetas, dois pimentões amarelos e dois vermelhos, 4 raminhos de coentro, tudo picadinho bem miúdo. Misture tudo e leve à geladeira, por no mínimo duas horas, eu deixei por cinco horas. Na hora de servir, montei o prato com o ceviche no centro; em cima, uma pimenta biquinho, de um lado meia lua de abacate, do outro folhas crocantes de alface americana e completando com 3 metades de tomatinhos cereja e um fio de azeite. Por cima salpiquei salsinha finamente picada. Na mesa levei um pote de “fleur de sel de Guerand”, e cada um temperava a seu gosto. Ficou maaaraaavilhoso! Um prato leve, refrescante, agradável, fácil de fazer e a cara do verão do Rio; como já disse, escoltado pelo espumante Angheben, que, pra mim, é um dos melhores (ou o melhor) nacionais neste momento. Amarelo claro brilhante, com fina e persistente perlage. Fresco na medida, finamente frutado com a elegância de um champagne, e na boca intenso e persistente. Limpava o paladar do ceviche a cada gole, para em seguida a boca ganhar outro bocado de peixe. Excelente!

Coelho

Como prato principal, escolhi uma carne leve também: coelho. Esta receita, que adaptei de um livro de receitas francês que me dá muitas inspirações, dá à carne uma suculência e sabor bem diferentes das receitas mais conhecidas. Já fiz “lapin” algumas vezes, mas agora adotei esta receita e não faço mais de outra forma. É o seguinte: cortes de coelho (compra-se o coelho já cortado, em bandejas, nos supermercados), o dobro do número de comensais, pois vão querer repetir, garanto; tempere-os a seu modo e gosto (alho, cebola, pouco sal, alho poró, cenoura, alecrim, vinho branco, pimenta branca e outras etc.). Deixe marinando por algum tempo. Faça um molho de tomate bem suculento, pedaçudo, encorpado. Coloque este molho no fundo de uma travessa de barro, como uma cama. Por cima coloque os pedaços de coelho envoltos em tiras de bacon e ponha para assar por aproximadamente uma hora e meia ou um pouco mais.

Inicialmente, vede o tabuleiro com papel alumínio e quando o forno já estiver quente, abaixe um pouco, para que cozinhe. Antes de servir, uns 20 minutos antes, retire o papel e deixe dourar. Servi com uma jardineira de legumes “al dente”, feita com pedaços suculentos de cogumelos (portobello ou shitake), abobrinha e tomates, refogando primeiramente os cogumelos, quando já estiverem no ponto, retire-os da frigideira e refogue a abobrinha, quando estiver quase no ponto, acrescente os pedaços de tomate picados em quatro, quando estiverem bons misture tudo e em alguns minutinhos sirva-os imediatamente.

Para este prato, delicioso, servi um vinho branco de bom corpo, passado em madeira; no caso foi o Gran Chardonnay 2006 - Joffrée e Hijas – Argentina (Enoteca Fasano), fizeram uma simbiose fantástica. Cor já evoluída para branco, aromas de baunilha, frutas brancas em compota e especiarias, com 13,8% de álcool e a passagem por carvalho o fez ter uma maciez perfeita, com um longo final frutado e untuoso. Combinou perfeitamente bem com a carne branca do coelho, mesmo sendo com molho de tomate e ervas sem ser tão condimentado e com a jardineira de legumes refogados na manteiga.

Os queijos que vieram a seguir, um Primadona curado e um Gran Formaggio da RAR, tiveram um tinto delicioso amparando-os, o Chinon Pensées de Pallus 2006, 13%, de Chinon, vale do Loire, França (Vinci Vinhos). Pouco conhecido por aqui, mas ótimo Cabernet Franc, de uma região também pouco conhecida para tintos e principalmente desta uva que é coadjuvante da Cabernet Sauvignon na famosa região de Bordeaux. Cor muito escura, com aromas de frutas e especiarias muito bem fundindos além de chocolate e notas frescas vegetais. Com taninos já domados, frescor e maciez harmônica no seu bom corpo presente na boca, já pronto pra ser apreciado com prazer, deixando um rasto saboroso e longo.

Estou escrevendo isso e salivando, só de pensar no que foi o jantar .... hum!
As peras portuguesas servidas de sobremesa, foram cozidas mas mantendo a consistência firme, numa calda de um litro d’água com uma xícara de açúcar, 3 paus de canela, 3 cravinhos, uma colher de café de açafrão, casca de metade de uma laranja e um cálice de licor de laranja, e uma pitada de sal. Servida gelada com uma bola de sorvete de canela e com o vinho de sobremesa Intenso da Salton, elaborado com a uva chardonnay envelhecido em carvalho além de mosto concentrado de chardonnay e deslitado vínico, tem 15% de álcool. Ficou dos deuses, só provando pra saber. Já com cor âmbar, aromas de baunilha, mel, canela e cravo, flores e frutas cozidas; de corpo e redondeza bem marcante na boca bem equilibrada com sua acidez que não deixa ficar enjoativo, longo final.
Acho que vou arranjar um pretexto semana que vem pra fazer tudo de novo. Estou só salivando. Se você também está, chame aqueles amigos a quem está devendo uma retribuição e faça esta aventura deliciosa sem medo de ser feliz neste verão maravilhoso do Rio 50 graus. Você vai se deliciar antes, durante e depois. Aproveite!
 

Degustando Sem A Crise

Neste momento estamos passando por uma crise financeira mundial (ou é o ventilador americano que tá espalhando?), que derruba bolsas e faz o dólar disparar. Aqui, pelo que as autoridades estão dizendo, está tudo sob controle e não seremos tão afetados como em outros grandes países, mas nós, amantes de vinho, já estamos diretamente atingidos. Com a disparada do dólar, os vinhos importados e comprados nesta moeda são a resposta da crise mundial entrando pelos nossos bolsos, bolsas e taças.
Como em todo caos, alguns ganham e muitos perdem. E em época de crises temos que ser criativos para não só sobreviver como também tirar proveito de pequenas e poucas possibilidades. Agora, vejo uma oportunidade para que o mundo do vinho (que é líquido) nacional não se evapore no ar ou fique envelhecendo nas caves e adegas e não perca o bonde da historia para se firmar nesta viagem, nacionalmente.

 

Acho que esta é uma boa hora para diminuir uma crise interna. A crise de (des)confiança nos vinhos nacionais. De um lado paira uma crise de confiança no mundo financeiro que retirou a liquidez do mercado (internacional). Do outro, temos no mercado interno, um líqüido para ser comercializado sem deixar que a liquidez do mercado financeiro internacional interfira.
Quero dizer o seguinte: Existe uma faixa de consumidores no mercado que, sendo amante de vinho, e procurando sempre qualidade, pensa que só a encontra em vinhos importados. Nunca provando os produtos vinícolas nacionais, atuais. Este público que só bebe/compra vinho estrangeiro e em muitos casos compra em dólar, pode estar desconfiado com esta dança financeira e paralisar estas compras eventualmente ou temporariamente.
Esta brecha na comercialização dos vinhos importados pode e deve ser ocupada pelos vinhos nacionais, para que este consumidor pelo menos prove nosso produto, que já é de muito boa qualidade e não é vendido/comprado com base no dólar.  Uma prova disso é que importadoras, conceituadas e de alto nível, para uma faixa elitizada, que só tinham, em seus catálogos, vinhos de outras nacionalidades, hoje já fazem constar neles produtos de vinícolas brasileiras.
Penso que nossas empresas vinícolas deveriam ser mais agressivas e atuantes em suas campanhas de marketing e se fazer chegar perto deste público, nesta época.  Mas se não agir rápido, perderão o bonde da crise. Talvez através de caixas mistas de bons produtos, com alguma nova estratégia ou uma tentadora promoção, mesmo diminuindo um pouco a margem de lucro. Quem sabe assim possa consolidar a venda para esta parcela de degustadores ainda não alcançada.
 
Exemplificando o que disse, foram as provas cegas que promovi com alguns grupos de enófilos já bem rodados nesta estrada da degustação! Sempre degustamos em cada encontro de 3 a 4 vinhos, fazendo analises descritivas sem conhecer seus rótulos. Em algumas dessas degustações inseri, entre vinhos italianos, franceses, chilenos, portugueses, espanhóis, etc., um nacional. E os resultados surpreenderam aqueles que ainda tinham esta desconfiança. Este é um bom momento para se aproximar dos nossos produtos, sem preconceitos. Refiro-me principalmente aos tintos.

 

“Vinhos do Sul – Sul de Onde?” foi o tema de um dos encontros. Junto com o Château
Montus Cuvée Prestige 2001 de Alain Brumont , feito da uva Tannat, vindo de Madiran, que fica no sudoeste da França e é muito conceituado internacionalmente, tendo recebido 93 pontos da revista americana Wine Spectator e com o Contessa Entelina “Mille e uma Notte” DOC 2000, elaborado com as uvas Nero D’Avola e Nerello, da vinícola Donnafugata, da Sicilia, sul da Itália, também um ícone daquela região, inseri dois brasileiros.
Um deles o Villa Francioni Tinto 2004, de São Joaquim em Santa Catarina. Elaborado das uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Malbec, passa no seu amadurecimento 12 meses em barrica nova de carvalho francês Allier (nome da floresta localizada no centro da França de onde a madeira vem). Um vinho intenso, de cor vermelha rubi escura, de grande amplitude aromática, lembrando violetas, chocolate, ameixas, frutas vermelhas de bosque, especiarias, leve frescor da menta, e notas de tostado. Na boca se apresenta com equilíbrio excelente entre acidez, maciez que chega a redondo e taninos presentes maduros e macios, enche a boca com seu corpo potente, de longo final frutado. Este vinho foi pontuado com 92 pontos de média num grupo de 6 degustadores experientes. Os estrangeiros citados acima tiveram médias de 86 e 91,5 pontos respectivamente.
Outro vinho foi o Desejo 2004 da Vinícola Salton, localizada no distrito de Tuiuti em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul. Vinho que foi eleito por um grupo de jurados especializados o melhor nacional na Expovinis 2007 – maior evento de vinhos do Brasil, atualmente. De cor muito boa, vermelho rubi escuro, com aromas ainda jovens de frutas vermelhas maduras, caramelo, chocolate, baunilha, violeta, sutilmente apresentando notas de menta e tostado. Excelente na boca, o exame gustativo se apresentou de alto nível, com grande equilíbrio entre sua acidez, maciez e taninos, com álcool muito equilibrado, 13%, qualidade bastante fino, muito intenso com longa persistência de seus aromas e sabores na boca. Este vinho obteve notas entre 91 e 96 dos seis degustadores, alcançando média de 92.2 pontos. Grande vinho, pronto para ser degustado com prazer agora e por mais uns 3 anos, no mínimo. Em outra degustação, inclui este vinho junto com o Montepaone IGT 2000, Castelo de Montepó/Biondi Santi da Toscana/Itália e o famoso Don Melchior 2001 da Concha Y Toro chilena. As pontuações foram 89, 89,2 e 92,5 respectivamente.
Outro vinho que inseri numa degustação livre junto com o Domus Maximus 2004 do Château Massamier La MIgnarde – AOC Minervois La Liviniére, do Languedoc, sudoeste da França, que obteve 91 pontos da publicação especializada Wine Spectator, foi o Merlot Terroir 2004 da Vinícola Miolo, elaborado no Vale dos Vinhedos – Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. Este foi eleito o melhor vinho brasileiro de 2007, pela revista GULA, edição 175. Elaborado com assessoria de Michel Rolland (um dos enólogos mais famosos da frança atualmente), estagia em carvalho francês por 1 ano e só é elaborado em safras excepcionais, em 2006 e 2007 não foi feito. De cor rubi muito escura, aromas de grande intensidade e diversidade, mostrando desde frutas vermelhas e negras (cassis, amora, ameixas,...), passando pelas violetas, defumados, especiarias, tabaco, até os aromas de caça, pele de salame. Na boca se apresentou levemente fresco em sua acidez, com taninos bem presentes, precisando ainda de tempo para se tornarem equilibrados (degustado no inicio de 2007, acredito que agora esteja mais pronto), mais do que bom corpo com álcool e maciez na medida. Um ótimo vinho para acompanhar uma carne suculenta, por exemplo um cabrito, como o que comi (excelente) neste último final de semana no restaurante Oliveiras da Serra, em Araras, pena que não tinha este vinho para acompanhar.
Como disse, temos vinhos muito bons agora, alguns novatos no mercado, mas prontos para serem descobertos na busca de uma saída para a crise, sem deixar a boca seca.

 

Um Vinho de Dois Amigos

Indo viajar à noite para o exterior, meu marido resolveu degustar de tarde um vinho nacional, último exemplar da safra de 1999 na adega, dizendo que temia pela sua idade, já que 9 anos de guarda para vinhos nacionais é um risco. Confesso que não gostei da idéia, pois gostaria de guardar para sempre esta garrafa, como uma lembrança muito cara. Mas como não somos colecionadores, cedi. Abri a garrafa um pouco desconfiada e na expectativa do que encontrar, e com o cuidado que se dispensa a um raro, querido e antigo objeto.
Mas para nosso deleite, estava excelente. No ponto alto de sua trajetória como substância viva que é o vinho. Cor granada escura com reflexos também granada, muito límpido, cor de vinho maduro, porém saudável. Aromas deliciosos e complexos, de boa intensidade e persistência. Lembrando frutas vermelhas em geléias (amoras, framboesas e groselhas), leve chocolate amargo. Notava-se algo como ervas finas, ameixas secas, baunilha e madeira na medida certa. Na boca, não apresentava a acidez acentuada comum nos vinhos nacionais, estava harmoniosamente equilibrado entre seus taninos (macios), acidez e maciez. De médio corpo, enchia a boca e descia redondo, com seus civilizados 12,5% de álcool, deixando um longo final agradável de frutas em compota com especiarias. Parecia um Bordeaux da margem direita (St. Emilion, Pomerol), de alto nível, após vários anos de guarda.
Não é à toa que este vinho foi considerado pelo meu amigo Julio Anselmo, de Belo Horizonte, um marco na vitivinicultura nacional. Quando o provou pela primeira vez, em 2000, Julinho, grande entendedor e provador de vinhos (um dos fundadores da Academia do Vinho e do primeiro Guia de Vinhos Brasileiros, editado em 2001, do qual participei), disse ter descoberto numa pequena e ainda desconhecida vinícola, um grande vinho, ainda muito novo, mas com grande potencial. Realmente ele tinha razão. O vinho, Pizzato Merlot 1999, da Vinícola Pizzato, do Vale dos Vinhedos de Bento Gonçalves (RS) (www.pizzzato.net). Pena ele não estar junto para prová-lo agora, 8 anos depois.

 

Já o havíamos provado antes várias vezes e gostávamos sempre, mas naquele momento aquela garrafa nos encantou. Lembramos emocionados e homenageamos com um brinde dois amigos que nos proporcionaram estar degustando este vinho. Amigos que já partiram em viagem para o outro lado e não voltam mais. O enólogo responsável pela elaboração do vinho, Ivo Pizzato, falecido em 2007, e o médico e enófilo idealizador do evento de vinhos “Vamos à Montanha”, Edilson Krüger, falecido em 2006, quando pilotava seu avião Cessna, tentando cruzar os Andes da Argentina para o Chile, numa viagem enogastronômica. Penso que os dois ficariam felizes em saber sobre a excelente evolução do vinho e do nosso encantamento.
A garrafa foi arrematada, junto com outras tantas, da Adega do Confrade Edilson, em leilão no “Vamos à Montanha” de 2006, realizado em Tiradentes (MG), em sua homenagem (www.academiadovinho.com.br/vamos/histórico). Aliás, gostaria de frisar que mesmo para um vinho de guarda chegar neste ponto tão bem, foi necessário um cuidado especial na sua conservação, muito bem guardado desde seu berço até quando o adquirimos, quando continuamos a cuidar bem dele. Somente um amante e conhecedor de vinhos sabe respeitar e dar importância a tal tarefa.
E por lembrar este leilão, não posso deixar de mencionar aqui outra surpresa agradável e inesquecível que arrematamos naquele dia, também da Adega do Comandante Edilson. Uma garrafa Matusalém (com 6 litros), do vinho top da Vinícola Miolo, o “Lote 43”, também da safra de 1999.

Imagem da Ana Maria segurando uma garrafa de vinho.

As grandes garrafas fora de serie do tamanho normal (750 ml) foram feitas para momentos especiais, festas, comemorações e grandes encontros. Por isso resolvemos abri-la no meu aniversário, junto com alguns amigos chegados. Pensamos que iria até sobrar, pois uma garrafa com aquela quantidade... Mas para nossa grata surpresa o vinho acabou antes da reunião acabar. E nenhum outro que abrimos depois alcançou o nível de equilíbrio e maturidade perfeitos que sentíamos no Lote 43.
De cor ainda bastante viva, rubi escuro quase brilhante, nariz com notas de frutas vermelhas e pretas bem maduras que se mesclavam com as especiarias numa sensualidade instigante, além das notas de baunilha, alcaçuz, vegetais secos, mas algo ainda fresco, leves notas de “sus-bois” (folhas úmidas do chão das florestas fechadas) e pelica. Na boca os taninos maduros, macios, muito bem integrados com a maciez aveludada e acidez no ponto exato emolduravam o longo final frutado e especiado. Uma degustação inesquecível com um vinho nacional também inesquecível tornou aquele dia especial (06/06/08) uma comemoração memorável.
É importante registrar que o envelhecimento do vinho é mais lento quando acondicionado em garrafas maiores. Tendo-se por base uma garrafa normal, de 750 ml, e, sendo um vinho de guarda, precisa-se de pelo menos 2 anos a mais para abrir, por exemplo, uma garrafa Magnum (1,5 litros), do tamanho daquela que os pilotos vencedores na Fórmula 1 chacoalham felizes no pódio.
 

Infelizmente, a safra 99 não se comercializa mais, está esgotada. Aliás, recebi um email da Vinícola Miolo (www.miolo.com.br), Projeto Confrarias, informando que as últimas garrafas da safra 2004 (que foi excelente), também já estão se esgotando. Termino por aqui para tentar encomendar pelo menos uma garrafa Matusalém do Lote 43 safra 2004, se ainda der tempo, e daqui a alguns anos, quem sabe, quando abrir esta garrafa acender a memória lembrando as pessoas, vinhos e fatos que valem à pena.

 

 

Vinho nacional safra 2008: nível de qualidade elevada

Que vinho é cultura todo mundo sabe. E que a história do vinho faz parte da história da Humanidade, também.
Há registro de vestígios de vinho de 5500 a.C., há oito mil anos, encontrados nos montes Zagros, no Oeste do Irã, mas os arqueólogos acreditam que o vinho surgiu no final da Idade da Pedra, por acaso; e Noé foi o primeiro homem a plantar vinhedos e a fazer vinho, segundo a Bíblia. De lá para cá, a vinha e o vinho percorreram um longo caminho e fazem parte de várias histórias no mundo.

 

Muitas videiras são nativas de vários países, de muitas partes do mundo, e onde elas não cresciam espontaneamente foram plantadas e cultivadas, dando origem a diversos tipos de vinhos, uns melhores outros nem tanto. A experiência, a observação do homem sobre onde e como plantar, os métodos de cultivo, o avanço da tecnologia de vinificação, a ajuda do conhecimento cientifico, os procedimentos de amadurecimento e envelhecimento, bem como sua guarda e conservação fizeram com que esta bebida dos deuses fosse melhorando de qualidade. E temos hoje o nosso vinho de cada dia, cada dia melhor.

 

Na história do Brasil não foi diferente, se bem que muito mais recente. São apenas 476 anos desde a chegada das primeiras videiras por aqui, em comparação aos milhares de anos de tentativas e erros, experiências, observações e degustação (ou mesmo bebedeira) do Velho Mundo vitivinícola.
A partir da chegada das primeiras mudas de uva, em 1532, trazidas por Martim Afonso de Souza, e tendo como primeiro viticultor Brás Cubas, a videira e o vinho passaram por altos e baixos. Na verdade, mais baixos que altos.
Hoje, graças ao trabalho e tenacidade de alguns apaixonados por este produto, estamos chegando num nível de qualidade em que nossos vinhos já não fazem feio em competições nacionais e internacionais. Nossos produtos têm recebido prêmios nos muitos concursos enológicos que acontecem mundo afora. 

 

É verdade que nos faltam vários fatores naturais, em comparação aos países ícones na produção de vinhos. Mas nossos produtores, atentos e criativos, estão sabendo superar estas dificuldades, não só com o emprego de técnicas atuais de cultivo e vinificação, mas com a garra e a perseverança próprias dos amantes da terra e do vinho.
 

Avaliação

É lógico que ainda temos um longo caminho pela frente, ainda somos jovens neste “metiê”, mas a qualidade de nossos vinhos, a cada safra, tem sido avaliada por um grupo de profissionais e enófilos que comprovam sua evolução. A prova disso aconteceu em 27 de setembro na XVI Avaliação Nacional de Vinhos, da safra de 2008, em Bento Gonçalves (RS), e pela terceira vez consecutiva, simultaneamente através de vídeo-conferência direta com outra cidade, desta vez em Curitiba, no Paraná.
A degustação e avaliação das 16 amostras finalistas de vinhos (do total de 318 inscritas de 62 empresas vinícolas, do seis estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais) foi feita por um júri convidado de 15 especialistas do Brasil e exterior e um sorteado na hora, da platéia, além de aproximadamente 900 apreciadores no auditório. Excelente maneira de proporcionar ao público interessado uma demonstração da qualidade dos vinhos da safra atual, para quando esta chegar ao mercado.

Abaixo a lista dos 16 vinhos mais representativos da safra 2008 e suas vinícolas produtoras. As pontuações variaram entre 86 e 90 na média geral, na última fase das três etapas de avaliação.
Sugiro guardar a lista para consulta posterior.

 

16 amostras selecionadas para degustação

Empresa

Variedade

Categoria

Casa Valduga

Chardonnay*

Branco Fino Seco Não Aromático

Catafesta

Ancellotta*

Tinto Fino Seco

Cia Piagentini Bebidas e Alimentos

Viognier*

Branco Fino Seco Não Aromático

Cooperativa Vinícola Aurora

Cabernet Franc*

Tinto Fino Seco

Don Guerino

Chardonnay II*

Branco Fino Seco Não Aromático

Estabelecimento Vinícola Valmarino

Cabernet Franc*

Tinto Fino Seco

Fazenda Ouro Verde

Moscato Itália*

Branco Fino Seco Aromático

Fortaleza do Seival Vineyards

Pinot Noir*

Tinto Fino Seco Jovem

Moët Hennessy do Brasil

Chardonnay/Pinot Noir/Riesling Itálico*

Base Espumante

Rasip Agropastoril

Merlot II*

Tinto Fino Seco

Vinhos Salton

Moscato Giallo II*

Branco Fino Seco Aromático

 

Riesling Itálico I*

Branco Fino Seco Não Aromático

Vinícola Gheller

Tannat*

Tinto Fino Seco

Vinícola Miolo

Merlot II*

Tinto Fino Seco

Vinícola Monte Lemos

Merlot/ Cabernet Sauvignon*

Rosé Seco

Vinícola Perini

Chardonnay/Pinot Noir/Riesling Itálico*

Base Espumante

*Os 16 vinhos apresentados no evento do dia 27/09/2008.

Para saber a relação dos 95 vinhos classificados entre os 30% representativos da Safra 2008, acesse www.enologia.org.br (Feira e Eventos: Avaliação Nacional...)

 

 

 

Viagem através da tempranillo

O inverno “invoca” vinhos mais estruturados e pratos mais suculentos, não muito pesados, mas reconfortantes.
Foi neste clima que viajei, sem sair do Rio, para a Espanha, através das taças numa degustação da qual participei recentemente.
Foram três vinhos da uva tempranillo, autóctone da Espanha, onde recebe vários nomes, dependendo da região de plantio. Os exemplares degustados eram todos das cercanias do Rio Duero (Douro em Portugal), a saber: Toro, Sardon del Duero e Ribera del Duero. Todos muito parecidos sem serem iguais. Cada um, além de demonstrar a tipicidade da casta tinta de Toro ou tinta de Lebre (outros nomes da tempranillo), com seus aromas e sabores apresentava um “quê” de diferença, de estilo próprio e particular da vinícola, do enólogo e do “terroir” onde nasceu.

 

Sardon Del Duero

Iniciamos com um Abadia Retuerta Selección Especial 2003 com 14% de álcool. Vinho de uma cor rubi escuro atraente. Nos aromas sedutores, de frutas vermelhas e pretas maduras, sobressaiam as cerejas, groselhas, amoras, ameixas temperadas com leve pimenta, baunilha e alcaçuz, envoltos num chocolate negro e tendo notas de vegetais secos, e tudo isso complementado por um leve tostado da madeira das barricas francesas e americanas, onde passa 18 meses se afinando. Na boca, sapidez equilibrada e taninos finos maduros e macios, presentes sem agredir. O álcool aparecia num ponto a mais que o ideal, e esquentando até a boca do estomago, pedia comida para amenizar esta sensação. Seria um prato não gorduroso, mas com boa textura e sabores algo delicados, sem muito condimento, podendo ter no molho até um toque de fruta vermelha, sem exagero, talvez com xarope de romã.

 

Toro

Outro vinho que reforça a boa reputação da tempranillo, o Pintia 2004. A Bodegas Pintia, de propriedade da famosa Vega Sicília, fica num lugarejo também denominado  Pintia, onde estão sendo feitas escavações num grande sitio arqueológico, com vestígios da civilização pré-romana dos Vacceos, que habitaram a região por volta do séc.III AC. Emergente, esta nova região vinícola tem impressionado os críticos mais famosos do mundo, seus vinhos vêm recebendo altas notas a cada safra. De clima continental com leve influencia oceânica e grandes oscilações de temperatura, média de 12,5ºC anuais, com verões quentes e muito secos, pouca chuva, propicia boas condições de sanidade e assegura adequada maturação das uvas.
Cor entre púrpura e rubi muito escuro, ainda com reflexos levemente violáceos. No nariz aromas frutados, floral, vegetal e mineral se mesclam elegantemente. Notamos as frutas vermelhas e pretas (amora, mirtille, framboesa) banhadas por um chocolate negro, temperadas com especiarias doces como baunilha, alcaçuz, noz moscada e toques do frescor da menta, um leve terroso, musgo e louro. Do alto de seus 15% de álcool, não dá a sensação de ser quente na boca, mas com um calor agradável sem ser caustico, amenizado pela excelente maciez, pela qualidade dos taninos e o leve frescor, por ser ainda jovem. Vinho que vai longe. Muito elegante também na boca, mas já ótimo,  ficará ainda mais complexo daqui a alguns anos. Vale a pena fazer esta viagem por seus aromas e sabores.

 

Ribera Del Duero

E para arrematar esta viagem degustamos o Aalto PS 2003, com 14,8% de álcool.
Não sei se por acaso, mas realmente é um vinho de “aaalto” nível. O PS quer dizer Pagos Selecionados, ou seja, parcelas de vinhas especiais com suas uvas selecionadas para a elaboração deste maravilhoso vinho. De cor rubi a púrpura escuro, com reflexos matizados, de levemente violáceos a rubi quase brilhante, muito bonita sua cor. A amplitude de aromas é enorme, indo desde os aromas primários de frutas vermelhas e pretas (morangos, cerejas, groselhas, amoras, mirtille) e mesmo de casca verde como a goiaba vermelha, e das flores violeta e rosa vermelha, mostra o vegetal como a sálvia, funcho, musgo, até os aromas terciários de folhas secas úmidas (sus-bois, lê-se “subuá, como diz o francês). Segue ainda por várias especiarias, como canela, noz moscada, pimenta, baunilha, alcaçuz, até o mineral, e toques empireumáticos do tostado, do café e chocolate. Todos muito bem mesclados, com grande intensidade e persistência, elegantemente dosados. Na boca, com equilíbrio excepcional, finíssimo, de grande intensidade, longo final, com retrogosto semelhante às características aromáticas, persistindo por muito tempo as notas de chocolate, frutas e vegetal. Com taninos finos presentes, maduros sem ser adocicados, seu leve frescor e grande maciez faz este vinho inesquecível. Daqueles para guardar no caderninho de vinhos especiais.

Vale a pena uma excursão por esta região noroeste da Espanha, com suas paisagens, história, castelos, palácios, ermidas, catedrais e museus, além de sua gente, seus vinhedos e vinhos. Mas se não der para ir pessoalmente, invista numa viagem através de seus vinhos, pelos aromas e sabores desta uva. Os vinhos descritos já são importados para o Brasil. Além destes, hoje no mercado temos outras várias opções da uva tempranillo, mais em conta, tanto da Espanha (sua origem) como de Portugal (ali chamada de Aragonês no Alentejo ou Tinta Roriz no Douro), ou também da Argentina e do Brasil, onde a Vinícola Miolo, com vinhedos plantados na região da Campanha gaúcha, produz um vinho desta uva: Fortaleza do Seival Tempranillo, bem vinificado pelo competente enólogo Adriano Miolo. Pela análise da sommelier da Vinícola Miolo, Gabriela Jornada, o da safra 2006, com seus 13,5% de álcool, se mostra, com intensidade de cor média/alta e tonalidade de vermelho rubi. Seu aroma é frutado, ressaltando frutas vermelhas maduras integradas com a madeira de carvalho, que confere ao vinho uma certa complexidade aromática. Na boca apresenta uma estrutura média com taninos suaves e delicados, deixando uma sensação agradável no final. Apresenta média estrutura, casando perfeitamente com carnes em geral, até mesmo carnes bem passadas, churrasco etc. Massas e pizzas também são uma boa pedida. Queijos de massa amarela do tipo Emmenthal acompanham esse vinho com perfeição, segundo a sommelier.

 

 

África do Sul

Vou escrever minhas impressões sobre vinhos, não só sobre as “viagens” que cada garrafa de vinho me proporciona através dos seus aromas e sabores, mas também nas viagens que faço para me aprofundar nos sabores dos “terroirs” de cada vinho.

 

Em recente viagem à África do Sul, em janeiro, já no avião comecei a saborear os vinhos daquela terra com a expectativa de encontrar aquele “sabor”, aquele algo mais da cor local. Porém, vinhos de avião, classe turístico-econômica, não são lá essas coisas, nem anotei os nomes. Mas, lá na África, me surpreendi com alguns vinhos da uva Pinotage (casta originaria da África do Sul, obtida do cruzamento da Pinot Noir e Cinsaut), verdadeiras delicias.

imagem ana na vinícola Seidelberg.
Ana na sala de degustação da vinícola Seidelberg com a sommelier Heidi.

Já conhecia os vinhos deste país há mais de 15 anos, quando meu marido me trazia de suas viagens a negócios por lá, alguns bons exemplares. O primeiro pinotage que degustei foi o da Kanonkop (hoje importado pela Mistral), de Stellenboch, uma das melhores regiões de vinho do país; uma curiosidade, e naquela época achei interessante, diferente, mas nada de extraordinário.

 

Ainda hoje degusto bons vinhos de bons produtores deste país, que produz vinhos desde 1685, em meus grupos de degustação, mas limitados aos poucos produtores que aqui chegam trazidos por várias importadoras. Confesso que, de todos que encontro por aqui, nenhum pinotage me fez a cabeça. Conheço bons shiraz, cabernets sauvignons e sauvignons blancs desta terra.

 

Mas nesta viagem provei alguns pinotages, de vinícolas que ainda não desembarcaram aqui, que me surpreenderam. Logo quando iniciei minha visita à primeira vinícola, me foi indicado que provasse o pinotage; como fiz um ar de desinteresse por tal uva, passaram a discorrer sobre seus predicados, pareceres de especialistas e prêmios recebidos. Tudo bem, pensei, vamos lá! Mas pensando que seria perda de tempo, e eu não dispunha de muito. Qual não foi minha surpresa quando senti os aromas e principalmente quando o primeiro gole me encheu a boca. Fiquei admirada! Que delícia de vinho! Será que não é corte? Pensei. Era varietal puro de pinotage, da Groot Constantia, primeira empresa a produzir vinhos na África do Sul, que fica na região de Constantia, nos arredores da Cidade do Cabo (Capetown).

 

Descrição do vinho: Pinotage 2006 – Groot Consttatia Estate – www.grootconstantia.co.za

Cor rubi escuro impenetrável. Aromas a café, frutas vermelhas como morangos e cerejas, além de baunilha, tabaco, tostado. Na boca, muito bom equilíbrio entre acidez correta e maciez redonda com taninos de ótima qualidade, maduros e ainda bem presentes no palato. Encheu a boca com intensidade e teve longo final aromático no retrogosto, com presença das frutas vermelhas e baunilha. O teor de álcool era de 14%, alto para um pinotage, mas não aparente, deu a maciez necessária ao vinho sem ser agressivo. Custo/beneficio muito bom, na vinícola custa $ 88.00 Rands (moeda africana).

 

Logo a seguir, em outra vinícola, com vinhos que infelizmente não chegam ao Brasil, a Seidelberg, na sub-região de Paarl, provei mais dois exemplares da uva pinotage. Novamente tive a mesma surpresa (ou constatei a mesma coisa), e até ao perceber que mesmo o vinho de linha mais baixa estava num nível de qualidade que para mim é raro nesta uva.

 

Descrição do vinho: Seidelberg Pinotage 2OO7 – Seidelberg Wine Estate - www.seidelberg.co.za

Tonalidade rubi escuro, vivo, linda cor. Aroma concentrado de frutas vermelhas (cerejas, mirtille, morangos), canela, chocolate e um vegetal fresco agradável. Boa intensidade e persistência aromática. Na boca ótimo equilíbrio, textura e sabores. Taninos de boa estrutura totalmente integrados com a acidez e maciez dos sabores das frutas maduras e especiarias permaneciam longamente no paladar. Vinho macio, totalmente pronto para beber, mesmo ainda sendo jovem. Um vinho que deve ser degustado nos próximos dois anos. Com 14,3% de álcool. Passou 4 meses em barricas de carvalho sendo 90% em carvalho francês e 10% em barricas de carvalho americano, o que lhe deu o toque abaunilhado e de especiarias no retrogosto. Ótimo custo pela qualidade apresentada, em Rands, custa 59.00 na vinícola.

 

Descrição do vinho: Roland’s Reserve Pinotage 2006 – Seidelberg

Cor rubi, bem escuro porém vivo, com reflexos rubi brilhantes, linda cor. Deliciosos aromas saltaram ao nariz, que se apresentou com ótima intensidade e persistência aromática de cerejas, framboesas, mirtilles maduras e frescas, canela, chocolate, baunilha, alcaçuz, dentre as que mais se sobressaíram. A medida que se aerava na taça, mais e mais aromas se desprendiam. Ao provar, mostrou uma ótima boca com uma densa estrutura tânica, mas taninos maduros e bem integrados aos outros caracteres do vinho. Com seus 15% de álcool, esquentou levemente a boca, que foi equilibrada com a acidez e os taninos macios. Ótima intensidade , enchendo a boca, e longa persistência no palato, com retrogosto de fruta madura como cassis, além do chocolate preto, cravo, baunilha, entre outros. Vinho complexo termina muito bem, deixando a boca com gosto de quero mais.

 

Outro ótimo custo/qualidade: $ 98.00Rands na vinícola. Aliás, esta vinícola tem vinhos de muito boa qualidade com preços muito em conta. Seria uma ótima aquisição para qualquer importador.

 

Shiraz: delícia

Mas confesso que, nos restaurantes, não me atrevi a pedir nenhum vinho daquela uva, sempre preferia um cabernet sauvignon ou shiraz, uvas internacionalmente mais adaptáveis a diversos terroirs.

 

Será algum tipo de preconceito meu por esta uva, como eles ainda guardam pelos “não brancos” da época do apartheid. Tanto que na primeira refeição em solo africano, num jantar em um bom restaurante indiano, pedi um Shiraz (pensando nos condimentos e especiarias). Realmente foi a escolha certa, “casou” perfeitamente com a comida, devido aos temperos que aquela terra nos legou. Que delícia!  Uma carne africana à moda indiana, com direito a todas as especiarias possíveis (cravo, canela, gengibre, pimentas, etc.). O vinho com uma textura que agüentou bem o peso da comida, com seus aromas e sabores que se assemelhavam aos condimentos usados. Taninos já integrados porem presentes, dando corpo e estrutura, com longo final de boca, retrogosto de frutas e especiarias se mesclavam. Mas de tão entusiasmada que fiquei (era aquele paladar que estava esperando desde o avião), esqueci o guardanapo em que anotei o nome do vinho na mesa do restaurante... Só sei que tinha no rótulo preto um desenho em dourado de um cachorro sentado segurando na boca um chapéu. Shiraz de 2004 com 14,5% de álcool. Quem souber ou estiver em viagem por lá por favor, me envie o nome do vinho e da vinícola, pois este é um que merece ser anotado no meu caderninho de vinhos especiais que já provei. Maravilhoso, nossa estadia começou bem.

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